Thiago Amud

O DESFAZIMENTO DO BRASIL

…e o Brasil vinha que vinha
quebrando-se,
rebatendo contra os chapadões de minh’alma.
Desmoronava o casario da rua larga,
ladeira larga por onde filetes de suor escorreram até o cais lusitano,
batavo, normando.
A seiva de meu coração, o sopro suave de vida
sumiam sob toneladas de argila, caliça, taipa
e vitrais estilhados, moídos.
A lua, concedendo luz baça aos capôs emparelhados na Paulista,
doía em meus olhos amaldiçoados
orlados por parasselenos da insônia infinita.
Igarapés dentro da lama preta
projéteis contra-revolucionários disparados por
líricos republicanos de primeira hora
dentro da lama preta,
da lama preta de meu sangue a pino.

E eram tantas as veredas, eram miríades,
capoeiras e mirantes, aguapés e cumeeiras -
- tudo virando farelo
na moenda de meus intestinos.
Ressaibos de magia impregnados no sopé da Pedra Bonita
se redefinindo e se afunilando e me retorcendo e me penetrando
e me pondo um fecho na glote.
A Serra do Mar, de ponta a ponta, nos meus gorgomilos
a terceira margem do Ipiranga
enchendo e vazando o meu sentimento de perene tormenta
a polução noturna do Capibaribe
acumulada em meus testículos torcidos em pelourinho.

E era um escabro o primeiro uníssono das três raças tristes
que apenas meus ouvidos adivinharam
e eu não dormia eu não dormia eu não dormia
e nunca mais dormi
e era o meio-dia
quando os mato-grossenses ainda choram desentendimento
pela tromba d’água de horas atrás
e era a meia-noite
quando os soldados do Turano arquitetam a tocaia e nem olham
o Cruzeiro do Sul.

…e o Brasil vinha escoando pelo meu plexo-solar eclipsado,
talhado a cutelo e peixeira
e era mais um pacto de militares e civis
rasgado sob o aniilamento de nossas aerovias
em mim;
e era a metafísica esticada em traquéias exasperadas
lixadas no áspero dos xiquexiques
em mim;
e era a soalheira de Manaus condensada em cataratas de césio rubro-negro
em mim;
e era o patriarcado esfiapado pelas unhas de pedagogas soro-positivistas
em mim;
e eram todos os ciclos da monocultura perfazendo-se em mim
num átimo,
desde a pilhagem das madeiras que nos batizaram a fogo
até a rósea manhã da alforria
quando os barões do açúcar viraram estátua de sal;
e eram garotas iracemas pegando um atalho na Praia do Futuro
para alcançar a Ipanema de outrora;
e eram bacharéis chumbados de asteróide ao lado de surfistas encarquilhados
dando todos ao crepúsculo o mesmo aplauso protocolaico
em mim em mim em mim;
e era o desmonte da malha ferroviária
e um cordel toando a reforma previdenciária
e a eficácia da Engenharia Comportamental empunhando armas invisíveis
para o desbarate das urtigas do conservadorismo
e um triângulo maçom ferrado no lombo do imperador
e a estampa altaneira do Padre Cícero galgando a eternidade
e uma jarrada de baionetas no Raso da Catarina acossando
a coragem virgulina
e a friagem ufana dos pampas
e o cristianismo do Tambatajá
e a ascese avessa de Pombal
e as honras maculadas por vacinas empedernidas
e o silvo do irerê moldurando a usura do sesmeiro com um
desperdício de delicadezas
e um estampido tatuando um silêncio na zoeira encantada dos seringais
e os contrafortes da Mantiqueira servindo de arrimo à rebeldia dos gigantes
e o seio dos sertões jorrando leite amarelo na goela dos dragões
e um súbito monólito aparecendo no centro de esferas milenares
sotopostas ao chão do Planalto -
- e era tudo em mim…

…e o Brasil vinha com tudo, mas a alegoria entalava na boca da avenida
e eu sufocava enquanto um trio elétrico atravancava-me a carótida
mas já era o boi aruá ronda-rondando nas várzeas apertadas
de minha auto-estima
mas já eram mulas sem cabeça constelando de cincerros a trilha do saci
mas já eram pirilampos orvalhando a Ilha de Florianópolis
mas já era Marajó, alagado coágulo boiando no meu cérebro.

A mestiçagem me dilatava os poros, em intermitente hemorragia.
Num espasmo de alucinação
eu expelia a nação
ressumando água palustre
vomitando caranguejos vivos sobre o mangue de dendê
sobre o Rio Tietê
que desembocava nas plagas de um Paraná agonizante
em mim.

 

Barragem não havia que me imunizasse
açude não havia que satisfizesse:
o Amazonas e a caatinga se me revezavam no atropelo dos minutos
e eu ficava um solo devastado
catanduva sobre a qual brancarrões troncudos e sararás cambaios disputavam,
de quatro em quatro invernos,
a taça de ouro -
- a pedra do muiraquitã – engastada na Bolsa de Valores.
Até mim chegavam balsas entupidas de caboclos ribeirinhos
a fim de, sim, dançarem Parintins den’de mim
e uma suçuarana lambia lentamente minha língua (que, àquela altura, já seria um dédalo de lagartas de fogo)
e uma gota de mercúrio brotava do primeiro olho do Rio Branco
e lacrimejava todos os socalcos até pingar no Uruguai derradeiro
ameaçando de extinção os jacarés, as seriemas,
e deflagrando entre os universitários do Sudeste
uma incrível campanha contra os ianques.

Ai, não fôra tudo isso em mim,
mas era tudo aqui neste imo sem eixo
neste maldito corpo esquálido.

A fatalidade medida em tiroteios miríficos
o sub-reptício ódio latejando surdamente à entrada dos imigrantes
o entocamento quilombola de toda uma dinastia
a diáspora dos separatistas
a metástase de Cubatão
o amplexo tétrico na Lagoa
o halo de pax aeterna sobre o Complexo do Alemão,
a estupefaciente dissonância de um cancioneiro em fim-de-linha,
os majestáticos plurais a que recorrem poetas inventores de falsos oráculos,
atores e cantores aos magotes inoculando-se herpes em plena coluna social -
- tudo, tudo, tudo cirandava no espelho em que eu mal divisava o meu rosto.

O meu rosto: a rachadura no cristal
a cicatriz de um país morto.

Depois o espírito pátrio sutilizado viria em rebojos
do reino das puras formas, do cósmico Marco Zero,
até reencarnar nas suas protoplacas tectônicas.
Mas agora ainda era a lepra da matéria pêca tombando pesada no vórtice
de um sumidouro destampado pelas águas de março.

Quanto a mim não havia nenhuma esperança, nenhuma esperança,
salvo o lindo pendão,
sudário que as potestades do mato prenhe
costuraram-me diretamente na carne
selando o transpasse de minha sétima vida,
quando me desfiz em seixo na foz do São Francisco
e fui estancar meu ciclo de transmigrações no salino regaço de Dona Janaína,
epifania de Nossa Senhora da Aparecida -
- padroeira do Brasil!