Thiago Amud

O ANTIGO E O NOVO SE ENCONTRAM EM GUINGA (LEONARDO LICHOTE, O Globo, 17 de agosto de 2010)

Fonte: O Globo

“O ANTIGO E O NOVO SE ENCONTRAM EM GUINGA

Como o compositor, que toca hoje com Mônica Salmaso no CCBB, influencia jovens músicos da linhagem mais clássica da MPB

AOS 60 ANOS, Guinga se diz satisfeito por saber que sua música “entrou no coração de uma geração”

Leonardo Lichote

jovem Guinga entrou no estúdio e Meira, mestre do violão, estava lá, ao lado dos igualmente gigantes Dino Sete Cordas e Canhoto. Era a sessão de gravação de “O mundo é um moinho”, de Cartola, para o álbum clássico de 1976. Guinga lembra que sentiu o peso de tocar ali, mas foi em frente. Muito em frente. Com 60 anos recém-completados (no dia 10 de junho), o violonista — que hoje faz uma homenagem a Meira, cantando sua “Quando a saudade apertar” no show que apresenta com Mônica Salmaso no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) — tornou-se a partir da década de 90 um dos artistas mais influentes para instrumentistas e compositores brasileiros da linhagem mais clássica da MPB. Uma importância que aparece sobretudo em artistas novos como Edu Kneip, Thiago Amud, Chico Pinheiro, Armando Lôbo, Mauro Aguiar e Chico Saraiva, mas também em outros de sua geração (a produção recente de Chico Buarque talvez seja o exemplo mais marcante).

Uma influência que não dá mostras de enfraquecimento, como se vê nos novíssimos alunos que chegam à Escola Portátil de Música:

— A influência de Guinga é claramente perceptível neles — conta Mauricio Carrilho, fundador e coordenador da escola. — Por sua linguagem superpessoal, tocando e compondo, ele se tornou uma representação da música moderna brasileira. Jovens músicos com mais habilidade e discernimento procuram o Guinga em primeiro lugar.

Guinga resiste em assumir essa importância (“O cabotinismo é uma coisa horrível”, diz), mas reconhece que sua obra anda com as próprias pernas na mão das gerações que o sucederam:

— Me dei conta disso pela maneira como eles me procuravam, pelas composições deles. Minha música toca pouco em rádio, posso morrer sem fazer sucesso, mas vou sabendo que ela entrou no coração de uma geração. Nunca estamos realizados, mas saber que minha obra segue na mão desses artistas já me faz dormir tranquilo.

A resistência que tem em apontar músicos que foram influenciados por ele (“Não acredito em professor, acredito em aluno”) é inversamente proporcional à generosidade em apontar suas referências. Vão desde o tio Marco Aurélio, que lhe apresentou o violão, aos 11 anos, e o professor Paulinho Cavalcante (“Me apresentou as harmonias de João Gilberto, a bossa nova”), até ícones do violão como Villa-Lobos, Garoto, Baden Powell, Dilermando Reis, Chiquito Braga e Hélio Delmiro, seu primeiro deslumbramento:

— Quando Paulinho Cavalcante me apresentou Delmiro, minha cabeça explodiu.

É com palavras do tipo que muitos falam do impacto de conhecer a obra de Guinga.

— Entrei em choque quando o ouvi, assim como quando ouvi Villa-Lobos. Ele tem o poder de causar uma virada na formação de um músico — resume o violonista e compositor Chico Pinheiro. — É impossível qualquer violonista que veio depois de Guinga não passar por ele.

Fã e parceiro de Guinga, Edu Kneip também testemunha:

— Quando conheci sua música, foi um susto. Meu primeiro disco traz essa influência muito na cara. De sua geração, é o que se mantém mais moderno — afirma Kneip, que iguala Guinga a Chico Buarque, Tom Jobim, Edu Lobo e Francis Hime.

Conceitos como “modernidade” são comumente associados à sua obra. O compositor Thiago Amud analisa esse aspecto de Guinga, que não se contrapõe ao fato de ele seguir a tradição da canção brasileira:

— Guinga consegue conjugar as conquistas harmônicas da passagem do século XIX para o XX, o que se convencionou chamar de “impressionismo”, com o lirismo melódico de cara seresteira, de valsa de subúrbio, da modinha, do choro. E tem levado isso a tal ponto que esse casamento de duas coisas antigas soa novo. Por isso se vê nele esse amálgama de gerações, desde Cartola e Nelson Cavaquinho, com quem ele conviveu, até a mim e meus colegas.

“Mais compositor que violonista”

Entre os jovens músicos que bebem de sua obra, Guinga destaca um mestre:

— O maior da História do violão brasileiro, o Michelangelo do violão é Marcus Tardelli (que gravou o CD “Unha e carne”, dedicado à obra de Guinga). Se Deus tocasse violão tocaria como ele.

Tardelli vê uma mão dupla na relação com Guinga:

— A composição dele me influencia muito, e meu violão o influencia. Ele diz que quando ouço sua música tenho vontade de tocar, e ele, quando ouve meu violão, se inspira a compor.

Ao falar de seus mestres, Guinga avalia as lições que aprendeu com cada um deles e, de alguma forma, rascunha uma linhagem do violão brasileiro. Garoto é “a perfeição, o equilíbrio entre estética e emoção”; Dilermando é “o dono das melodias”; Baden “juntou a alma do Garoto, a África, a bossa nova, a valsa e o choro”; Delmiro traz “a convergência de Baden com o jazz de Wes Montgomery”; Meira “sintetiza erudição e popular”; Villa-Lobos “traduz em linguagem universal toda a nobreza do violão brasileiro”. E ele, o próprio Guinga?

— Meu violão é o de um cara que queria ser todos esses caras e não tem o virtuosismo para isso — define. — Por isso tenho que procurar meus caminhos, expandir meus limites. E por isso me considero mais compositor que violonista.

Os caminhos da composição de Guinga, ele explica, muitas vezes não vêm do violão:

— Tenho paixão por determinados violonistas, mas nunca fiquei ouvindo gravação de violonista, tirando música. Tento passar para meu violão o que ouço em orquestras, em piano.

Chico Pinheiro, porém, vê na composição de Guinga uma profunda ligação com o violão:

— Sua música é indissociável do violão, assim como é difícil separar Chopin do piano — diz o músico, que põe o violonista no mesmo patamar artístico de Tom Jobim e Villa-Lobos. — Guinga desvenda caminhos violonísticos em suas composições, sobretudo ao combinar o rebuscamento clássico com a canção, que tem uma tradição fortíssima na música brasileira. E o fato de corajosamente não abrir mão desse rebuscamento, do que ele é, enfim, é muito inspirador para um músico jovem, ainda cheio de medos, inseguranças.

Sereno, Guinga — que pretende lançar um CD de inéditas em 2011 e é tema de um documentário do diretor italiano Massimo D’Orsi — dá seu parecer sobre todas essas teorias, exalando (falsa) simplicidade:

— Tenho 60 anos, mas quando pego meu violão me sinto jovem. Porque a minha música está chegando agora.”