Thiago Amud

Juarez Fonseca: Músicos Guilherme Kastrup e Thiago Amud se destacam por desafiar a “normalidade” (Juarez Fonseca, Zero Hora, 08/07/2014)

paralelo 30_8-7-14

Uma das tantas coisas fascinantes na música é que, quando menos se espera, surge uma surpresa. Kastrupismo, primeiro álbum do percussionista, programador e compositor Guilherme Kastrup, e De Ponta a Ponta Tudo É Praia-Palma, segundo do compositor, cantor, violonista e arranjador Thiago Amud, ambos cariocas, se encaixam à perfeição no aforismo de Millôr Fernandes: “Nem tudo está perdido, algumas coisas ainda nem foram achadas”. Os dois foram lançados no final de 2013, mas, como só agora os ouvi, não acho justo deixá-los para trás – nem para eles, nem para o leitor que não os conhece. Fazem “música para ouvidos livres”, como Arnaldo Antunes definiu a criação de Kastrup.

Nome de referência como percussionista e explorador de instrumentos insólitos, Kastrup anota no currículo a participação em 120 discos de gente como Gal Costa, Adriana Calcanhotto, Chico César, Zé Miguel Wisnik e Jorge Drexler. Este primeiro trabalho autoral tem origem na brincadeira de cortar e colar sons em um programa de gravação digital, que ele descobriu fascinado, anos atrás. Seguiu por aí em outros equipamentos, e o disco talvez nem saísse sem seu atual MPC (Music Production Controller). Por exemplo, a primeira faixa, a alegre Vento Bom, resultou de percussões e violas gravadas para um CD do violeiro Chico Lobo, que foram sampleadas e re-tocadas pelo MPC. Outros músicos fizeram trompete, trombone, samples de cordas. E assim por diante. Cada faixa do disco tem uma história contada por Kastrup no encarte.

Ele em geral começava a “brincar” sozinho, muitas vezes com trechos de gravações que fez em trabalhos de outros, e a partir daí convidava amigos para sobrepor no estúdio novas ideias e sons (de baixo, guitarra, violão, violino, flauta etc.). Em alguns casos, reutilizou as próprias sobreposições para gerar outra base. A música Tá Maluco, Rapaz? foi desenvolvida a partir de trecho de uma entrevista de Cartola ao programa de TV Ensaio. Palavras viraram sons. “Quando tudo estava parecendo pronto”, conta, “senti vontade de criar uma linha de costura para o álbum”.

Então, chamou Benjamin Taubkin, que, com seu esplêndido piano, “surfou” improvisando sobre o disco inteiro. A face eletrônica de Kastrupismo soa orgânica como os tambores rituais que são sua essência. É música instrumental, mas parece cantada. Soberbo!

Thiago Amud começou a chamar a atenção com o primeiro disco, Sacradança, de 2010, embora já estivesse em ação 10 anos antes, fazendo parte de uma turma disposta a dar novos ares à música no Rio de Janeiro. Cita Guinga como seu “maestro soberano”, e o próprio Guinga não mede palavras para classificá-lo como “um verdadeiro gênio da música brasileira”. Produzido pelo respeitado JR Tostoi, o novo álbum, De Ponta a Ponta Tudo É Praia-Palma, saiu com essa responsabilidade. E Amud não se intimidou, desafiando a “normalidade” que pauta a atual música brasileira – e, enfim, o país. Eu até diria que o vejo como um disco-manifesto, pelo discurso vigoroso e articulado em letras que só acham comparação de qualidade em Chico Buarque e Aldir Blanc, pelas composições e pelos arranjos inovadores. “Busco que meus arranjos sejam uma alegoria de tempos que se entrechocam, nascimento e decadência juntos”, resume o cara.

Atonalismos, ritmos alterados, erudito + popular, trompas, guitarras, acordeons, violoncelos e percussões cercam a voz marcante. O título do CD reproduz uma frase da carta de Pero Vaz de Caminha. A primeira faixa, Fado de Bandarra, já avisa que a viagem pela história do Brasil não será festiva, mesmo que tenha samba e frevo. A Saga do Grande Líder, em parceria com Edu Kneip (um dos amigos daquela turma), tem uma das letras mais sarcásticas feitas em muito tempo por aqui. Citando de Stravinski a Caymmi, Amud fez o que o crítico carioca Tárik de Souza define como “um Terra em Transe musicado”.