Thiago Amud

MUSICALMENTE PRONTO PARA O CAMPO DE BATALHA (CRISTIANO CASTILHO, Gazeta do Paraná, 05 de maio de 2010)

Fonte: Gazeta do Povo

“Musicalmente pronto para o campo de batalha

O carioca Thiago Amud lança Sacradança, disco “buarqueano” que revela um prosador inspirado

Em tempos de bombardeio sem trégua de novas bandas e novos artistas sustentados pela fragilidade da internet, dias nos quais a descartabilidade de discos – mesmo aqueles considerados bons costumam perder a vez para outros em aparelhos de reprodução digital –, é um pecado que Thiago Amud tenha surgido para o Brasil somente em 2010. Fosse outra época, naquela em que a boa canção brasileira tinha lugar garantido nas rádios e nas estantes, o carioca seria unanimidade e uma entrevista com ele seria motivo de orgulho profissional para este jornalista.

Seu feito chama-se Sacradança (Delira Música), primeiro disco do compositor e arranjador que “não conhece hora vaga” e que, neste momento, provavelmente está ouvindo Bach, Handel ou Mahler. Mas não se assuste. As criações do jovem músico são brasileiríssimas, como há muito não se via. Prova irrefutável é sua parceria com Guinga, que canta uma das dez pérolas de seu disco de estreia – concebido em 2006, arranjado em 2007, gravado em 2008 e lançado neste ano. “Se Sacradança é minha Divina Comédia, Guinga é meu Virgílio”, compara o músico.

No limiar entre a poesia cantada e a canção tradicional, Amud fala sobre o “cinismo ralo”, sobre a “crista da história”, sobre “gracejar”. Ouvir Amud é como ler um bom livro, que discorre com fluência sobre um carnaval festivo ou sobre nós mesmos, “o sal insípido do balneário”.

“Eu concebo todo o disco como uma luta entre transcendência e dissipação, entre verticalidade e horizontalidade. Cheio de visões infernais e anseios místicos, digo que Sacradança é um CD de MPB – Música Purgatorial Brasileira”, diz o carioca, já gravado por Milton Nascimento e Simone Guimarães no disco Flor de Pão.

Sem forçar a barra, o apreço pela prosa musicada lembra Chico Buarque. Há um zelo pela palavra certeira – “chafurdaremos” e “luíssima cheia”, canta Amud –, que embeleza sua proposta criativa, não totalmente compreendida nem pelo próprio.

“Prefiro me perder, não saber o que está se passando quando eu crio, resguardar o mistério. O ‘estalo’ inicial pode ser um tema, um verso, um nome ou uma melodia inteira que eu cubro de palavras. Penso depois, ou os outros pensam, o que é melhor ainda”, comenta Amud, trabalhador incansável.

“Eu, pelo menos, não me permito tirar férias. Quanto ao Chico: há muito de Chico nesse meu processo sim, porque as canções dele foram centrais para que eu entendesse o que acontece quando uma rima explode ao mesmo tempo em voz e em sentido”, completa.

Se em termos literais seu trabalho é obra digna de atenção, o quesito musical não fica longe.

Reiventando frevos, choros, polcas, sambas, valsas, boleros e outras formas musicas que fogem às réguas das rotulações, Amud é feliz e carioca em “Aquela Ingrata” – perceba os metais despretensiosos –, e moderno e “universal” em “Regonguz”, música sustentada sobre um violão inspirado na bossa nova, um triângulo forrozeiro e um baixo reto, roqueiro.

Brincando também com a atonalidade, Amud consegue subverter o que seria, a princípio, uma canção popular. Ouça a angulosidade de “Madrêmana”, a última do disco. Os encadeamentos de acordes são inesperados, criativos, embora a melodia seja “buarqueanamente” cantarolável. Sua expressão, enfim, é máxima e genuína, o que deixa uma pergunta no ar: o que será de Amud agora?

“Não sei, realmente. O que sei é que estou preparado para ir ao campo da batalha”, responde o músico, dono de um dos melhores discos nacionais deste ano.”