Thiago Amud

FEBRE

(- A civilização está ferida de morte?! Mas meu coração é tão puro…) Ó, condenação! sempre florir, reflorir num grande charco. Ser o pensamento que se sabe pensando e, por isso, não poder ser o herói que remontará às fontes do acorde humano! Ó, fatalidade! só poder oferecer faces ruborizadas ao escárnio e à comiseração de gente fátua. Eu quisera tanto mais, tanto esperara da juventude, mas a Aurora de Dedos Róseos só traz os mesmos pasquins estampando prostitutas e suas velhas taras humanitárias…
Acordei em delírio, a febre chegara. Evoé! Estão batendo na porta ou nos olhos? É tempo acabando? São têmperas latejando? (Tem alguém aí?) Saiu do começo da história um trenzinho carregado de provisões levando o socorro para o homem do futuro.
Eleição, mito judeu – tem música se insinuando nos caracóis de meus ouvidos – Filhos de Israel, com que certeza e terror deslocastes o eixo das rodas primeiras e esticastes o dédalo do cosmos! Que desprendimento! Depois de vós, todos os agoras ficaram irrepetíveis, e vossa diáspora, que abriu as portas da minha salvação, me lançou na angústia de saber-me irrepetivelmente não-eleito e ainda assim ser vosso herdeiro…
Tem um elo claro que só eu não vejo (mas que está aqui para quem souber ver) entre o destino do Ocidente e os 40 graus de ironia que me acometem depois da meia-noite, quando há umidade, tuberculose e begônias extáticas plantadas na lua.
Os comissários adotam meninos carentes e, sorrateiros, querem me empurrar porta adentro de seu futuro instrumentalizado. Juram que a vinda do trenzinho cheio de proteínas é inevitável, do trenzinho que trilha desde o começo dos começos trazendo as metas, as bulas, a álgebra. Esses dignos cidadãos não querem nada com minhas rosas venenosas e só lhes resta instigar minha vontade de participação: “-Você pode mais, você é um de nós, você é o oposto de você.”
Uma gota de sêmen orvalha o roseiral perdido.
O menino morreu cedo demais, antes mesmo de nascer o homem! Foi muito aplaudido pela audiência, mas acabou-se.
“-Você ainda sente apego por suas veleidades, tolo donzel? São aves migratórias que agora estão acicatando outras ambições e devem pousar na ilha do não-sei-onde. São rebanhos buscando o pasto que não há. Ou são apenas taxas quimicamente incorretas no mulambo de seu cérebro, ex-menino, moço velho, poeta prosaico, homem-homem!”
Tudo o que esses homens me dizem é a mais pura verdade, eu sei disso, e eles são da mais legítima contemporaneidade. Não tenho como apelar – apelar pra quem? E ademais, insincero não sou – minha vaidade é invejável e é claro que ela é o flanco por onde sou vulnerável (ali o Inimigo me dobra, sobretudo quando joga platibandas e olhos verdes de soslaio) pois era ela – oh, confissão suicida – era ela era ela era ela era ela que me blindava com evangelhos e cruzes antes que eu amasse a caridade, a fé e a esperança.

Estou agora no cascalho, na caliça da língua, estou aprendendo a conjugar provérbios nascidos em reivindicações de massa. Estou fazendo a glosa do comissariado. Estou sendo bem pago pelo Ministério para saquear fonemas para implodir o núcleo da gramática e ladrilhar o pensamento com interjeições e frases prontas.

Vejam os plenipotenciários, embecados, cheios de pressa: sabem que o trenzinho está chegando. Eles estão agitados, parecem concordar com minhas palavras (mas não era a febre?) “- Senhores, como sois belos, como sois plurais! Quereis que todos sejam tudo, porque assim ninguém será nada. A dialética foi engolida pela alteridade por horror à autoridade”.

Eles ensaiam uma vaia, eu lhes antecipo: “-Senhores comissários, eu nunca me responsabilizaria por minhas assertivas, ficai onde estais, eu sou um anêmico, não passo de um meta-inimigo vosso, eu nunca vos poderia destruir, sois minha razão de viver, sois a miséria que eu esmiuço, o câncer que eu cutuco, sois sempre outra coisa, nesse ponto somos o mesmo, na negação coincidimos, somos uma coisa projetada, feita de ausências inesperadas…”
O trenzinho chegou, apitando uma batida gostosinha, era a música do futuro chegando…
As vertentes da montanha ecoavam, a paisagem era um campo de forças sociais, que sublimação!
(Quanto chicletinho na boca ordinária das moças nuas!)
Mas como já podia haver sobreviventes de uma guerra que ainda nem foi declarada? Tonitruei: “- Senhores, por que esse falatório se daqui de onde falamos fica depois do fim? Se à gente não coube amar, será que precisamos dessa confabulação digna de umbrais e consultórios médicos? Pra que toda essa campanha, essa catequese, essa futuropatia? Senhores, quanto à mim é fácil: simplesmente pegai-me, manietai-me, seviciai-me, estou aqui: narina e neurose, cloaca e cérebro, para vossos gládios pós-utopistas entrarem, ó, butineiros, gendarmes, letristas, ditadores, papagenos, senadores, dentistas, rábulas, focas de redação, pedicures, doutores da família, narcoterroristas, veterinários, ciclotímicos, virtuoses, companheiros. Mas tenho uma vantagem: sei que nunca mais vou parar de acabar, estou sempre depois de mim e, fatalmente aprenderei a arte da espera. Que venham em tropel o país, o continente, o planeta, as galáxias e todas as demais províncias onde há o tempo: fatalmente aprenderei a arte da espera.”

Os comissários me derrubaram dentro de um esquife, onde puseram uma placa: “Clandestino”. Mas era justamente essa a credencial para que eu entrasse no congresso que presidiam. (Estranhos expedientes esses…) Aqueles que todos pensavam serem seus inimigos figadais eram, em verdade, os que injetavam petrodólares em suas veias. Eles nem precisavam rir para me informar seu triunfo: “Seu continente é o mesmo parque de caudilhos, militares e funcionários públicos, com uma diferença: a miséria agora é trans-miséria, orgulhe-se dela. O povo eclipsou-se: é tempo de massas. Por isso, guarde com você, no escrínio de seu lirismo de araque, as lágrimas de crocodilo do rebotalho,
pleiteie um lugar ao sol para seus versos, finja que está a conclamar um novo canto geral. Para ser o poeta de seu tempo, basta cumprir duas regras: antes, tem que descobrir a alegria de ser um cidadão quase livre numa democracia teatral. Depois, tem que esposar um igual.” E todos embarcaram no trenzinho, rumo a não sei onde.
O Coro foi se distanciando, e, como repetisse “casar iguais, casar iguais”, obstinado, forjei no fogo baixo da impotência um pensamento inútil: “-Então por que não aproveitais o ensejo para casardes com o próprio Satanás?” Dito inútil: essa era precisamente a arte em que aqueles cáftens mais se destacavam, e nisso, como em tudo mais, parecidíssimos comigo: eles pensam em tudo, eu idem, eles são os que se pensam sem parar e eu também, nunca me abandono, nunca deixo Deus agir em mim. Se digo ‘Deus’, é um ideal que fulge. Não sendo Deus o Deus que digo, não são meus os pés com que piso, não são minhas as mãos com que pego, não são meus os olhos com que vejo e cego.
Não sendo Deus, é sempre nada é promessa é ânsia é nostalgia é passagem é dissipação é gasto é mais-valia é luxo é superfaturamento é apólice é promissória é dom desperdiçado é naco é nesga é ninharia é coisa é cisma é raiva é ócio é mágoa é mácula. Não é Deus. Deus é o Mesmo. Nem fora nem dentro – unitotal. Pensável só para os perpetuamente concentrados. Amor dos amores, vida de vidas, alma d’almas.
E nós quebrados, pensos, analfabetos da única língua que vale ser resgatada…
- Parece que a febre está cedendo e tem alguém batendo na têmpora e a tromba de sangue não força mais a porta do meu quarto de convalescente. Olho as paredes, diviso uns quantos pictogramas, como ardentia boiando. Olho o caderno em branco e uns vocábulos risonhos me ocorreram: reverdecimento. Estas linhas são arteiras, são artérias, são argueiros? Parece que tem um riso já não acre querendo se formar em minha cara. Estou vendo que tudo não passa de tudo que não passa, mas ainda desentendo muito as implicações disso.