Thiago Amud

ECLESIASTES GNÓSTICO

As horas despencavam no vazio,
Giravam dias como turbilhões,
Os anos arrastavam seus grilhões
Há séculos no pó do casario.

Milênios, eras, civilizações
Boiavam no sem-fim de um céu baldio.
De sóis e estrelas não restava um fio
E o nada já vidrara as multidões.

No instante em que a matéria devolvia
Ao átomo primeiro a dor de ser,
A mesma nesga pela qual caía

O resto de universo, eu pude ver
Tornar-se um vão nos flancos de Maria
E o mundo, um Cristo morto a renascer.