Thiago Amud

Sacradança – Ouçamos juntos (Revista Fórum Democrático, Junho de 2011)

Fonte: Revista Fórum Democrático > Matéria

A CONTURBAÇÃO DE AMUD (TÁRIK DE SOUZA, Jornal do Brasil, 26 de março de 2010)

Fonte: JB

SACRADANÇA – CRÍTICA (LUIZ FELIPE REIS, Jornal do Brasil, 30 de março de 2010)

Fonte: JB

O ANTIGO E O NOVO SE ENCONTRAM EM GUINGA (LEONARDO LICHOTE, O Globo, 17 de agosto de 2010)

Fonte: O Globo

“O ANTIGO E O NOVO SE ENCONTRAM EM GUINGA

Como o compositor, que toca hoje com Mônica Salmaso no CCBB, influencia jovens músicos da linhagem mais clássica da MPB

AOS 60 ANOS, Guinga se diz satisfeito por saber que sua música “entrou no coração de uma geração”

Leonardo Lichote

jovem Guinga entrou no estúdio e Meira, mestre do violão, estava lá, ao lado dos igualmente gigantes Dino Sete Cordas e Canhoto. Era a sessão de gravação de “O mundo é um moinho”, de Cartola, para o álbum clássico de 1976. Guinga lembra que sentiu o peso de tocar ali, mas foi em frente. Muito em frente. Com 60 anos recém-completados (no dia 10 de junho), o violonista — que hoje faz uma homenagem a Meira, cantando sua “Quando a saudade apertar” no show que apresenta com Mônica Salmaso no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) — tornou-se a partir da década de 90 um dos artistas mais influentes para instrumentistas e compositores brasileiros da linhagem mais clássica da MPB. Uma importância que aparece sobretudo em artistas novos como Edu Kneip, Thiago Amud, Chico Pinheiro, Armando Lôbo, Mauro Aguiar e Chico Saraiva, mas também em outros de sua geração (a produção recente de Chico Buarque talvez seja o exemplo mais marcante).

Uma influência que não dá mostras de enfraquecimento, como se vê nos novíssimos alunos que chegam à Escola Portátil de Música:

— A influência de Guinga é claramente perceptível neles — conta Mauricio Carrilho, fundador e coordenador da escola. — Por sua linguagem superpessoal, tocando e compondo, ele se tornou uma representação da música moderna brasileira. Jovens músicos com mais habilidade e discernimento procuram o Guinga em primeiro lugar.

Guinga resiste em assumir essa importância (“O cabotinismo é uma coisa horrível”, diz), mas reconhece que sua obra anda com as próprias pernas na mão das gerações que o sucederam:

— Me dei conta disso pela maneira como eles me procuravam, pelas composições deles. Minha música toca pouco em rádio, posso morrer sem fazer sucesso, mas vou sabendo que ela entrou no coração de uma geração. Nunca estamos realizados, mas saber que minha obra segue na mão desses artistas já me faz dormir tranquilo.

A resistência que tem em apontar músicos que foram influenciados por ele (“Não acredito em professor, acredito em aluno”) é inversamente proporcional à generosidade em apontar suas referências. Vão desde o tio Marco Aurélio, que lhe apresentou o violão, aos 11 anos, e o professor Paulinho Cavalcante (“Me apresentou as harmonias de João Gilberto, a bossa nova”), até ícones do violão como Villa-Lobos, Garoto, Baden Powell, Dilermando Reis, Chiquito Braga e Hélio Delmiro, seu primeiro deslumbramento:

— Quando Paulinho Cavalcante me apresentou Delmiro, minha cabeça explodiu.

É com palavras do tipo que muitos falam do impacto de conhecer a obra de Guinga.

— Entrei em choque quando o ouvi, assim como quando ouvi Villa-Lobos. Ele tem o poder de causar uma virada na formação de um músico — resume o violonista e compositor Chico Pinheiro. — É impossível qualquer violonista que veio depois de Guinga não passar por ele.

Fã e parceiro de Guinga, Edu Kneip também testemunha:

— Quando conheci sua música, foi um susto. Meu primeiro disco traz essa influência muito na cara. De sua geração, é o que se mantém mais moderno — afirma Kneip, que iguala Guinga a Chico Buarque, Tom Jobim, Edu Lobo e Francis Hime.

Conceitos como “modernidade” são comumente associados à sua obra. O compositor Thiago Amud analisa esse aspecto de Guinga, que não se contrapõe ao fato de ele seguir a tradição da canção brasileira:

— Guinga consegue conjugar as conquistas harmônicas da passagem do século XIX para o XX, o que se convencionou chamar de “impressionismo”, com o lirismo melódico de cara seresteira, de valsa de subúrbio, da modinha, do choro. E tem levado isso a tal ponto que esse casamento de duas coisas antigas soa novo. Por isso se vê nele esse amálgama de gerações, desde Cartola e Nelson Cavaquinho, com quem ele conviveu, até a mim e meus colegas.

“Mais compositor que violonista”

Entre os jovens músicos que bebem de sua obra, Guinga destaca um mestre:

— O maior da História do violão brasileiro, o Michelangelo do violão é Marcus Tardelli (que gravou o CD “Unha e carne”, dedicado à obra de Guinga). Se Deus tocasse violão tocaria como ele.

Tardelli vê uma mão dupla na relação com Guinga:

— A composição dele me influencia muito, e meu violão o influencia. Ele diz que quando ouço sua música tenho vontade de tocar, e ele, quando ouve meu violão, se inspira a compor.

Ao falar de seus mestres, Guinga avalia as lições que aprendeu com cada um deles e, de alguma forma, rascunha uma linhagem do violão brasileiro. Garoto é “a perfeição, o equilíbrio entre estética e emoção”; Dilermando é “o dono das melodias”; Baden “juntou a alma do Garoto, a África, a bossa nova, a valsa e o choro”; Delmiro traz “a convergência de Baden com o jazz de Wes Montgomery”; Meira “sintetiza erudição e popular”; Villa-Lobos “traduz em linguagem universal toda a nobreza do violão brasileiro”. E ele, o próprio Guinga?

— Meu violão é o de um cara que queria ser todos esses caras e não tem o virtuosismo para isso — define. — Por isso tenho que procurar meus caminhos, expandir meus limites. E por isso me considero mais compositor que violonista.

Os caminhos da composição de Guinga, ele explica, muitas vezes não vêm do violão:

— Tenho paixão por determinados violonistas, mas nunca fiquei ouvindo gravação de violonista, tirando música. Tento passar para meu violão o que ouço em orquestras, em piano.

Chico Pinheiro, porém, vê na composição de Guinga uma profunda ligação com o violão:

— Sua música é indissociável do violão, assim como é difícil separar Chopin do piano — diz o músico, que põe o violonista no mesmo patamar artístico de Tom Jobim e Villa-Lobos. — Guinga desvenda caminhos violonísticos em suas composições, sobretudo ao combinar o rebuscamento clássico com a canção, que tem uma tradição fortíssima na música brasileira. E o fato de corajosamente não abrir mão desse rebuscamento, do que ele é, enfim, é muito inspirador para um músico jovem, ainda cheio de medos, inseguranças.

Sereno, Guinga — que pretende lançar um CD de inéditas em 2011 e é tema de um documentário do diretor italiano Massimo D’Orsi — dá seu parecer sobre todas essas teorias, exalando (falsa) simplicidade:

— Tenho 60 anos, mas quando pego meu violão me sinto jovem. Porque a minha música está chegando agora.”

MUSICALMENTE PRONTO PARA O CAMPO DE BATALHA (CRISTIANO CASTILHO, Gazeta do Paraná, 05 de maio de 2010)

Fonte: Gazeta do Povo

“Musicalmente pronto para o campo de batalha

O carioca Thiago Amud lança Sacradança, disco “buarqueano” que revela um prosador inspirado

Em tempos de bombardeio sem trégua de novas bandas e novos artistas sustentados pela fragilidade da internet, dias nos quais a descartabilidade de discos – mesmo aqueles considerados bons costumam perder a vez para outros em aparelhos de reprodução digital –, é um pecado que Thiago Amud tenha surgido para o Brasil somente em 2010. Fosse outra época, naquela em que a boa canção brasileira tinha lugar garantido nas rádios e nas estantes, o carioca seria unanimidade e uma entrevista com ele seria motivo de orgulho profissional para este jornalista.

Seu feito chama-se Sacradança (Delira Música), primeiro disco do compositor e arranjador que “não conhece hora vaga” e que, neste momento, provavelmente está ouvindo Bach, Handel ou Mahler. Mas não se assuste. As criações do jovem músico são brasileiríssimas, como há muito não se via. Prova irrefutável é sua parceria com Guinga, que canta uma das dez pérolas de seu disco de estreia – concebido em 2006, arranjado em 2007, gravado em 2008 e lançado neste ano. “Se Sacradança é minha Divina Comédia, Guinga é meu Virgílio”, compara o músico.

No limiar entre a poesia cantada e a canção tradicional, Amud fala sobre o “cinismo ralo”, sobre a “crista da história”, sobre “gracejar”. Ouvir Amud é como ler um bom livro, que discorre com fluência sobre um carnaval festivo ou sobre nós mesmos, “o sal insípido do balneário”.

“Eu concebo todo o disco como uma luta entre transcendência e dissipação, entre verticalidade e horizontalidade. Cheio de visões infernais e anseios místicos, digo que Sacradança é um CD de MPB – Música Purgatorial Brasileira”, diz o carioca, já gravado por Milton Nascimento e Simone Guimarães no disco Flor de Pão.

Sem forçar a barra, o apreço pela prosa musicada lembra Chico Buarque. Há um zelo pela palavra certeira – “chafurdaremos” e “luíssima cheia”, canta Amud –, que embeleza sua proposta criativa, não totalmente compreendida nem pelo próprio.

“Prefiro me perder, não saber o que está se passando quando eu crio, resguardar o mistério. O ‘estalo’ inicial pode ser um tema, um verso, um nome ou uma melodia inteira que eu cubro de palavras. Penso depois, ou os outros pensam, o que é melhor ainda”, comenta Amud, trabalhador incansável.

“Eu, pelo menos, não me permito tirar férias. Quanto ao Chico: há muito de Chico nesse meu processo sim, porque as canções dele foram centrais para que eu entendesse o que acontece quando uma rima explode ao mesmo tempo em voz e em sentido”, completa.

Se em termos literais seu trabalho é obra digna de atenção, o quesito musical não fica longe.

Reiventando frevos, choros, polcas, sambas, valsas, boleros e outras formas musicas que fogem às réguas das rotulações, Amud é feliz e carioca em “Aquela Ingrata” – perceba os metais despretensiosos –, e moderno e “universal” em “Regonguz”, música sustentada sobre um violão inspirado na bossa nova, um triângulo forrozeiro e um baixo reto, roqueiro.

Brincando também com a atonalidade, Amud consegue subverter o que seria, a princípio, uma canção popular. Ouça a angulosidade de “Madrêmana”, a última do disco. Os encadeamentos de acordes são inesperados, criativos, embora a melodia seja “buarqueanamente” cantarolável. Sua expressão, enfim, é máxima e genuína, o que deixa uma pergunta no ar: o que será de Amud agora?

“Não sei, realmente. O que sei é que estou preparado para ir ao campo da batalha”, responde o músico, dono de um dos melhores discos nacionais deste ano.”

A MPB ENTRE A ARTE E O TRONO DO MERCADO (Tárik de Souza, REVISTA CULT, 15 de outubro de 2010)

Fonte: Cult > Matéria

“A MPB entre a arte e o trono do mercado

Com a erosão dos meios de difusão, compositores e intérpretes viram seu palco de atuação e propagação diminuído

Publicado em 15 de outubro de 2010

Tárik de Souza

Como o Brasil é muito extenso – fragmentado por regionalismos e absurdas discrepâncias de renda, escolarização e capacidade de geração e apreensão cultural –, não há como definir um rumo linear para a música popular. De forte apelo nacional, ela não possui uma voz única. Ao mesmo tempo, os cada vez mais abrangentes meios de comunicação também não a disseminam de forma democrática, com igualdade de oportunidades para os mais diversos gêneros sonoros que povoam nosso território. Tais limitações são regidas pela engrenagem financeira imediatista do mercado. Ou seja, é fácil encontrar música populista brasileira (geralmente classificada de brega) nos horários mais nobres dos meios de comunicação de massa, muitas vezes turbinada por uma divulgação artificial, financiada (o assim chamado “jabá”). E não a resultante da que deveria ser uma demanda popular de oferta ampla. É um circuito que se autoalimenta, já que ele condiciona o ouvido da maioria da população a um único tipo de música e abordagem.

Ainda que essa música possa vestir formatos como sertanejo, pagode romântico, forró pop ou axé music, muda-se a embalagem, mas o conteúdo vem recheado dos mesmos clichês poéticos de paixão exacerbada ou revanche amorosa, enquanto as linhas melódicas reprisam sequências surradas, incapazes de tirar a audiência da zona de conforto do já conhecido. “O povo sabe o que quer / mas o povo também quer o que não sabe”, já cantava com sagacidade o compositor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil, em “Rep”, faixa de seu disco O Sol de Oslo, de 1998.

Mas, dentro desse cenário viciado, há curiosas exceções, sob certos aspectos. Como o assumido “tecnobrega” paraense e suas variações, cujo lastro musical-poético não difere muito dos congêneres do mercado de massa, exceto pelo fato de ser um produto independente cedido à promoção pela divulgação pirata dos camelôs locais. Some-se a isso alta tecnologia, utilizada em iluminação, cenários, aparelhagem e efeitos sonoros. Da mesma forma, independentes (difundidos ou não por gravadoras) e virais, espalharam-se o rap, em geral de forte conteúdo contestatório, como o dos pioneiros Thaíde e DJ Hum, mais Racionais MC’s, Sabotage (que morreu assassinado), Mzuri Sana, O Rappa, Nega Gizza, Xis, MV Bill, Negra Li, e também uma perna associada ao samba, via Rappin’ Hood e Marcelo D2. E ainda o funk carioca, de alto apelo sexual, não raro pornográfico, junto aos “proibidões”, que exaltam os bandidos e a vida marginal. Inicialmente uma mera cópia dos batidões de baixo estertorado do estilo norte-americano miami bass, esse funk – dentro da espontânea antropofagia cultural brasuca – ganhou a adesão do tambor de candomblé, acelerou a batida e sofisticou-se na direção de um eletroclash nativo, com repercussões internacionais.

Após uma década de ouro – os anos 1980 –, quando implantou no país um modelo pós iê-iê-iê com tinturas punk e pop em variadas colorações (Blitz, Legião Urbana, Paralamas, Titãs, Kid Abelha, Engenheiros do Hawaii, Lobão, Lulu Santos, Marina Lima, Cazuza, Angela Ro Ro, Barão Vermelho, Ira!, RPM, Capital Inicial, Camisa de Vênus), o BRock, que conseguiu exportar até heavy metal via os mineiros do Sepultura, diminuiu sua influência e poder. Passou por uma geração que incorporou elementos étnicos como os do “mangue bit” pernambucano, viveu a imolação da rascante antidiva Cássia Eller, a meteórica passagem da híbrida banda Los Hermanos, e desaguou em tribos pop de calibres variados. Dos tristonhos de rímel do emocore aos jeans de cores ácidas do happy rock. Num nicho à parte, bandas como a cearense Cidadão Instigado (do guitarrista Fernando Catatau, o mais influente da nova fornada), Móveis Coloniais de Acaju, de Brasília, e a mato-grossense Vanguart oferecem dissonâncias ao discurso dominante no setor.

Fora do mercado os gêneros mais tradicionais do país
Os gêneros mais tradicionais do país, como o samba, o choro, a música nordestina (hoje abrigada sob o rótulo totalizante de forró), a música caipira (não confundir com a genérica sertaneja) e, principalmente, a MPB, foram desalojados da corrente principal do mercado. As mudanças sociológicas introduzidas no campo pelo agronegócio, seus utilitários de cabine dupla e rodeios luxuosos – que fez brotar até uma corrente de chamados “sertanejos universitários” – pareceram condenar os caipiras que ainda utilizam a ancestral viola, com afinações de nomes pitorescos como “cebolão”, “rio acima” e “rio abaixo”, à total obsolescência. Mas, a despeito de ter seu espaço reduzido a heroicos programas de TV, como os de Inezita Barroso e Rolando Boldrin, entre poucos outros, a caipirada, que revelou, a partir dos 1970, de Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho a Almir Sater, semeou ases da viola como Ivan Vilela, Roberto Corrêa e Paulo Freire. E um incontável número de seguidores, país adentro, do paradoxal virtuosismo caipira/erudito, do baiano Geraldo Ribeiro ao mineiro Renato Andrade – este, uma espécie de João Gilberto da viola, pelo mistério de sua originalidade e seus “causos” míticos.

Após conseguir reinventar-se por meio do pagode de raiz em meados dos 1980 (com Zeca Pagodinho, Grupo Fundo de Quintal, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Jovelina Pérola Negra, Jorge Aragão), o samba voltou a brotar nas casas noturnas de classe média de uma Lapa renascida da decadência, no Centro do Rio. Um dos berços da urbanização do samba (ao lado do Estácio), a Lapa, que sucumbiu nos anos 1950 com a ascensão dos inferninhos de Copacabana e ganhou impulso com neossambistas como Teresa Cristina e o Grupo Semente, Rodrigo Maranhão, Roberta Sá, Moyseis Marques, também abrigou pelotões renovados (ou revalorizados) de chorões.

Mas, apesar do aparecimento de notáveis jovens virtuosos como o violonista gaúcho Yamandu Costa e o bandolinista brasiliense Hamilton de Holanda, esse gênero (a que eles não limitam seus repertórios) enquadra-se no segmento da música instrumental, que teve seus espaços progressivamente reduzidos, especialmente no Rio, onde foram desativadas várias casas noturnas dedicadas ao setor. Ainda que sucessivos revivals da cinquentenária bossa nova tenham chamado atenção para o estilo samba-jazz, é pequeno o número de grupos ou solistas novos que conseguem traçar uma carreira expressiva fora do acompanhamento de estrelas canoras. Mas mesmo estas e os novos compositores(as) e cantores(as) viram seu palco de atua-ção e propagação diminuído, com a progressiva erosão dos meios tradicionais de difusão de seu trabalho: a venda de CDs e, posteriormente, DVDs.

O afundamento da indústria do disco
O afundamento da indústria do disco, especialmente no caso brasileiro, era previsível. Depois de décadas em que as diferentes gravadoras (na grande maioria, multinacionais) faziam suas apostas artísticas, como manda a prudência do mercado financeiro, em ases de curto, médio e longo prazo, essa estratégia foi drasticamente modificada, a partir dos anos 1990. O foco único passou a concentrar-se nos chamados produtos descartáveis, de fôlego curto, vendas altas e imediatas. A chamada MPB, cuja linha evolutiva após a era de ouro tinha tomado rumos cada vez mais inovadores após a bossa nova (era dos festivais, tropicalismo, clube da esquina, neonordestinos, vanguarda paulista), foi progressivamente alijada dos meios de difusão de massa, movidos, muitos deles, a jabá. Mesmo figurões coroados em décadas anteriores (Caetano Veloso, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Chico Buarque, Gal Costa, Jorge Ben Jor, Maria Bethânia, Djavan) passaram a viver mais de shows do que de discos. E muitos saíram das majors para selos independentes, uma tendência iniciada ainda nos anos 1970, com o pianista e compositor Antonio Adolfo e seu Feito em Casa (vendido de mão em mão) e a explosiva estreia do grupo vocal Boca Livre, que vendeu 100 mil cópias, em 1979, e atestou ser possível triunfar fora das regras tradicionais do mercadão.

E os artistas de gerações seguintes, como o pernambucano Lenine, o paraibano Chico César, o maranhense Zeca Baleiro, o carioca Paulinho Moska, a fluminense Zélia Duncan – mesmo seguindo o caminho inverso da ala rock, ou seja, misturando a MPB com pop –, fizeram longos trajetos até estabelecer-se. Algumas cantoras/autoras chegaram mais rápido ao topo, como Marisa Monte (impulsionada pelo mix dos Tribalistas, com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown), Adriana Calcanhotto (reinventando-se no heterônimo infantil Partimpim), Vanessa da Matta (propulsionada inicialmente por Maria Bethânia) e Ana Carolina (versátil até na associação com o camaleônico Seu Jorge). Mas o mercado estreitou-se à tradição (re)elaborada de criadores como Guinga, Sérgio Santos, Celso Viáfora, Mônica Salmaso, Chico Pinheiro, André Mehmari, Chico Saraiva. O que não impediu o aparecimento de uma nova fornada de ambiciosos criadores desapegados da política de resultados do mercado, como Armando Lobo, Thiago Amud, Mauro Aguiar, Edu Kneip. E de programadores/produtores/intérpretes que mudaram as regras do jogo privilegiando timbres e texturas (sucedendo o anterior binômio melodia/harmonia), como Lucas Santtana, Berna Ceppas, Kassin, Domenico, Moreno Veloso. E grupos/aparelhagem como Instituto (SP) e Digital Dubs (RJ). A internet projetou o folk da precoce Mallu Magalhães, que se encaminha para a MPB. E o aparecimento de muitos novos criadores simultâneos numa São Paulo cada vez mais efervescente culturalmente, embora não configure um movimento estético, denota inescapável vitalidade criadora. Alguns exemplos: Rômulo Fróes (e seu núcleo ligado às artes plásticas, com Nuno Ramos e Clima), Céu, Mariana Aydar, Karina Buhr, Luísa Maita, Rodrigo Campos, Tulipa Ruiz, Guizado, Marcelo Jeneci, Lulina, Thiago Pethit, Tiê.

Para onde apontam essas novas tendências? Que fôlego ainda terão os culturalistas em meio a uma corrente principal de difusão de massa que privilegia os reality shows, as novelas e sua rasa casta de celebridades? A internet, suas redes sociais e o Twitter, se possibilitam ao artista um acesso direto ao fã, também podem fazer nascer uma arte domesticada, regida pela necessidade de cortejar um nicho de mercado remanescente, pós-implosão das cadeias de lojas e a própria indústria de discos. Num momento de transição (da era industrial para a avassaladora era tecnológica) podem ocorrer curiosos paradoxos. Como a volta do vinil, em contraposição ao linchamento do CD, posterior e mais prático, ainda que com uma perda técnica, que não se compara com a que é submetida a leva de consumidores de músicas congeladas em iPods e MP3. A pulverização da arte on-line – que pune os produtores de conteúdo com a gratuidade e remunera regiamente os inventores de software e mecanismos de busca – pode resultar em novos formatos artísticos. Ou na multiplicação dos guetos, alijados pela massificação descaracterizadora. O “tempo rei”, a que também se referia em outra canção Gilberto Gil, virou tempo real. E ai de quem não for para o trono.

DEPOIMENTOS
“A produção contemporânea é muito heterogênea e diversa. Temos nomes como Yamandu Costa e Hamilton de Holanda, inigualáveis e inovadores na música instrumental; Lula Queiroga, poeta criativo e cronista do nosso tempo, na música pop; o maestro Roberto Minczuk, que está revitalizando a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) e trazendo um novo público para a música erudita. Precisamos de investimento na formação de uma plateia que pense música de uma maneira mais abrangente e crítica e que tenha mais elementos para poder escolher o melhor, dentro de seu gosto e estilo.”
Roberta Sá, cantora

“Os meios de produção ficaram mais baratos do que jamais foram. Há dez anos, a hora do estúdio era muito mais alta e você não conseguia a qualidade que temos hoje. Havia uma diferença enorme entre o estúdio caseiro e o profissional, mas, com a evolução digital, num laptop é possível fazer música. Isso definitivamente viabilizou que vários artistas tivessem o direito de existir. Existe a possibilidade de você publicar sua obra na internet, o que não dava para fazer há 15 anos. Precisava de uma gravadora grande, mas hoje tem a facilidade de sites, redes sociais etc. Inclusive dá para vender, além de produzir, publicar e promover seu trabalho. Claro que novos cenários trazem novas dificuldades e desafios, porém é inegavelmente mais barato. Acho que hoje é tudo mais democrático. Os talentos de hoje não têm a mesma dificuldade que os antigos, que ficavam na mão de umas cinco gravadoras com lançamentos limitados no ano. Principalmente no Brasil, que é um país que gosta de música e isso tem um efeito de difusão. É uma grande conquista.”
João Marcello Bôscoli, diretor-presidente da Trama Entretenimento”

MÚSICO CARIOCA LANÇA DISCO QUE MISTURA CANTO E POESIA (Eduardo Girão, GAZETA DE MINAS, reproduzido no blog DIVIRTA-SE, 05-05-2010)

Fonte: Divirta-se > Matéria

THIAGO AMUD – UM AUTOR BARROCO E CONTEMPORÂNEO (Luiz Felipe Reis, blog RADAR)

Fonte: Radar > Matéria

NA MÚSICA DE THIAGO AMUD, O ASSOMBRO TEM LUGAR GARANTIDO (Aquiles Reis, BRAZILIAN VOICE, 22-04-2010

Fonte: Brazilian Voice > Matéria

THIAGO AMUD PROPÕE CAMINHOS SEM RÓTULOS (Beto Feitosa, blog ZIRIGUIDUM.COM, abril de 2010)

Fonte: Ziriguidum.com > Matéria

“Thiago Amud propõe caminhos sem rótulos
Em primeiro CD cantor e compositor prega liberdade de sua arte

por Beto Feitosa

Cantor, compositor e músico, Thiago Amud lança seu primeiro CD, Sacradança pelo selo Delira Música. Compositor de melodias complexas e poesia rica, Thiago assina sozinho todas as dez composições do disco, que segue caminhos que nunca procuram o simples.

Não existem paralelos e nem influências nítidas, melhor colocar tudo em um caldeirão. A música de Thiago Amud tem algo de desconforto, despertando atenção para um cuidadoso mosaico de sonoridades. Essa é a tônica da complexa teia sonora de Sal insípido, ou logo de cara anunciada em Pedra de iniciação, que inverte o lugar comum: “No meio da pedra tinha um caminho”. Destaque para as linhas dos instrumentos de sopro, que podem ornar um frevo ou um baião. Ou até conversar com a voz do cantor.

Os ritmos são múltiplos, os acordes não são banais e nem para iniciantes. Sua música sobrepõe informações e camadas sonoras. “Meu Deus o que fazer / Com uma canção que me cutuca com vara curta”, pergunta no meio-frevo-sinfônico Aquela ingrata. Fechando o disco, em quase nove minutos Madrêmana vai da oração ao rock. O samba aparece transviado em Inteira, despedaçada.

Thiago segue um bloco carnavalesco em Enquanto existe carnaval, seguindo caminhos inesperados mas sem perder o olho na festa popular: “De tudo que há de novo sob o sol / Percebes tudo e te transformas num farol”. Nessa música conta com a participação do rico grupo/orquestra Frevo Diabo, que também apresenta a música em seu trabalho de estreia, lançado em 2009.

Um dos grandes incentivadores de Thiago, o compositor e violonista Guinga participa cantando em Irreconhecível. Guinga foi um dos primeiros a gravar uma composição de Thiago, fazendo parte de um seleto time de intérpretes que também inclui Milton Nascimento, Mariana Baltar, Simone Guimarães, Garganta Profunda, Pedro Moraes entre outros.

Herdeiro renascentista, tropicalista, brasileiro. Essas não são para tocar no rádio. É certamente um disco ousado, principalmente por se tratar de uma carta de apresentação. Thiago toma o nobre o corajoso caminho de não se enquadrar em nenhuma prateleira e nem aceitar rótulos. Sua música é livre, e a criatividade toma conta da linha do trabalho. Assim são os artistas, que não se acomodam e nem procuram adequar sua criação. Sacradança tem um saudável ambiente livre de vícios e repetições. O caminho é diferente e, por isso, nobre e valioso.”

 

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