Thiago Amud

O DESFAZIMENTO DO BRASIL

…e o Brasil vinha que vinha
quebrando-se,
rebatendo contra os chapadões de minh’alma.
Desmoronava o casario da rua larga,
ladeira larga por onde filetes de suor escorreram até o cais lusitano,
batavo, normando.
A seiva de meu coração, o sopro suave de vida
sumiam sob toneladas de argila, caliça, taipa
e vitrais estilhados, moídos.
A lua, concedendo luz baça aos capôs emparelhados na Paulista,
doía em meus olhos amaldiçoados
orlados por parasselenos da insônia infinita.
Igarapés dentro da lama preta
projéteis contra-revolucionários disparados por
líricos republicanos de primeira hora
dentro da lama preta,
da lama preta de meu sangue a pino.

E eram tantas as veredas, eram miríades,
capoeiras e mirantes, aguapés e cumeeiras -
- tudo virando farelo
na moenda de meus intestinos.
Ressaibos de magia impregnados no sopé da Pedra Bonita
se redefinindo e se afunilando e me retorcendo e me penetrando
e me pondo um fecho na glote.
A Serra do Mar, de ponta a ponta, nos meus gorgomilos
a terceira margem do Ipiranga
enchendo e vazando o meu sentimento de perene tormenta
a polução noturna do Capibaribe
acumulada em meus testículos torcidos em pelourinho.

E era um escabro o primeiro uníssono das três raças tristes
que apenas meus ouvidos adivinharam
e eu não dormia eu não dormia eu não dormia
e nunca mais dormi
e era o meio-dia
quando os mato-grossenses ainda choram desentendimento
pela tromba d’água de horas atrás
e era a meia-noite
quando os soldados do Turano arquitetam a tocaia e nem olham
o Cruzeiro do Sul.

…e o Brasil vinha escoando pelo meu plexo-solar eclipsado,
talhado a cutelo e peixeira
e era mais um pacto de militares e civis
rasgado sob o aniilamento de nossas aerovias
em mim;
e era a metafísica esticada em traquéias exasperadas
lixadas no áspero dos xiquexiques
em mim;
e era a soalheira de Manaus condensada em cataratas de césio rubro-negro
em mim;
e era o patriarcado esfiapado pelas unhas de pedagogas soro-positivistas
em mim;
e eram todos os ciclos da monocultura perfazendo-se em mim
num átimo,
desde a pilhagem das madeiras que nos batizaram a fogo
até a rósea manhã da alforria
quando os barões do açúcar viraram estátua de sal;
e eram garotas iracemas pegando um atalho na Praia do Futuro
para alcançar a Ipanema de outrora;
e eram bacharéis chumbados de asteróide ao lado de surfistas encarquilhados
dando todos ao crepúsculo o mesmo aplauso protocolaico
em mim em mim em mim;
e era o desmonte da malha ferroviária
e um cordel toando a reforma previdenciária
e a eficácia da Engenharia Comportamental empunhando armas invisíveis
para o desbarate das urtigas do conservadorismo
e um triângulo maçom ferrado no lombo do imperador
e a estampa altaneira do Padre Cícero galgando a eternidade
e uma jarrada de baionetas no Raso da Catarina acossando
a coragem virgulina
e a friagem ufana dos pampas
e o cristianismo do Tambatajá
e a ascese avessa de Pombal
e as honras maculadas por vacinas empedernidas
e o silvo do irerê moldurando a usura do sesmeiro com um
desperdício de delicadezas
e um estampido tatuando um silêncio na zoeira encantada dos seringais
e os contrafortes da Mantiqueira servindo de arrimo à rebeldia dos gigantes
e o seio dos sertões jorrando leite amarelo na goela dos dragões
e um súbito monólito aparecendo no centro de esferas milenares
sotopostas ao chão do Planalto -
- e era tudo em mim…

…e o Brasil vinha com tudo, mas a alegoria entalava na boca da avenida
e eu sufocava enquanto um trio elétrico atravancava-me a carótida
mas já era o boi aruá ronda-rondando nas várzeas apertadas
de minha auto-estima
mas já eram mulas sem cabeça constelando de cincerros a trilha do saci
mas já eram pirilampos orvalhando a Ilha de Florianópolis
mas já era Marajó, alagado coágulo boiando no meu cérebro.

A mestiçagem me dilatava os poros, em intermitente hemorragia.
Num espasmo de alucinação
eu expelia a nação
ressumando água palustre
vomitando caranguejos vivos sobre o mangue de dendê
sobre o Rio Tietê
que desembocava nas plagas de um Paraná agonizante
em mim.

 

Barragem não havia que me imunizasse
açude não havia que satisfizesse:
o Amazonas e a caatinga se me revezavam no atropelo dos minutos
e eu ficava um solo devastado
catanduva sobre a qual brancarrões troncudos e sararás cambaios disputavam,
de quatro em quatro invernos,
a taça de ouro -
- a pedra do muiraquitã – engastada na Bolsa de Valores.
Até mim chegavam balsas entupidas de caboclos ribeirinhos
a fim de, sim, dançarem Parintins den’de mim
e uma suçuarana lambia lentamente minha língua (que, àquela altura, já seria um dédalo de lagartas de fogo)
e uma gota de mercúrio brotava do primeiro olho do Rio Branco
e lacrimejava todos os socalcos até pingar no Uruguai derradeiro
ameaçando de extinção os jacarés, as seriemas,
e deflagrando entre os universitários do Sudeste
uma incrível campanha contra os ianques.

Ai, não fôra tudo isso em mim,
mas era tudo aqui neste imo sem eixo
neste maldito corpo esquálido.

A fatalidade medida em tiroteios miríficos
o sub-reptício ódio latejando surdamente à entrada dos imigrantes
o entocamento quilombola de toda uma dinastia
a diáspora dos separatistas
a metástase de Cubatão
o amplexo tétrico na Lagoa
o halo de pax aeterna sobre o Complexo do Alemão,
a estupefaciente dissonância de um cancioneiro em fim-de-linha,
os majestáticos plurais a que recorrem poetas inventores de falsos oráculos,
atores e cantores aos magotes inoculando-se herpes em plena coluna social -
- tudo, tudo, tudo cirandava no espelho em que eu mal divisava o meu rosto.

O meu rosto: a rachadura no cristal
a cicatriz de um país morto.

Depois o espírito pátrio sutilizado viria em rebojos
do reino das puras formas, do cósmico Marco Zero,
até reencarnar nas suas protoplacas tectônicas.
Mas agora ainda era a lepra da matéria pêca tombando pesada no vórtice
de um sumidouro destampado pelas águas de março.

Quanto a mim não havia nenhuma esperança, nenhuma esperança,
salvo o lindo pendão,
sudário que as potestades do mato prenhe
costuraram-me diretamente na carne
selando o transpasse de minha sétima vida,
quando me desfiz em seixo na foz do São Francisco
e fui estancar meu ciclo de transmigrações no salino regaço de Dona Janaína,
epifania de Nossa Senhora da Aparecida -
- padroeira do Brasil!

 

A CIDADE ZERO

(A ostra, a pérola, a ostra, a pérola, a ostra…)

I
Com estranha aparelhagem, com diverso material,
obras – só – projeto e feitura da cidade.
Aquela que exigirá do transeunte ou eventual morador
intimidade com códigos desaprendidos
porque a tua engenharia não se inscreve no espaço.
Tudo o que ergues atende a urgências ocultas que bem conheces
e jamais conhecerás.
Nenhum descanso é permitido.
Queres – querem – construir a Cidade,
dá-la por acabada o mais rápido possível.

II
Noites crispadas, um corpo em labuta.
O que fazes, enumero:
recolhes a cal retida entre os instantes
e suspendes prédios até o motivo das estrelas;
cavucas o betume contido nos silêncios
e pavimentas ruas infinitamente paralelas;
desenhas o gráfico do trajeto do pio do pássaro
em relação à propagação da música da lua;
geometrizas a respiração das águas;
estudas as possibilidades de fabricação de inédita arquitetura
toda com cheiro de branco,
adornada de brilhos sempre invisíveis;
decifras sempiternas equações, que se propõem a si mesmas em carrossel.
Com as soluções, válidas por nem-átimo-de-segundo,
ergues perpétuas pontes;
destroças o pedregulho sobre o qual se erigiu o Verbo
(não destróis o Verbo)
e a carnadura desfeita da rocha perfaz as primeiras calçadas,
onde pulsarão as artérias do Criador.

III
Agora, já não te deves turbar com problemas morais, filosóficos.
Tua empreitada é árdua. Não desvies a atenção.
Urge a Urbe.
Tudo o mais que se dissolva
em teu cálculo, em teu gesto.
A Cidade Zero
se desdobrará em puras formas
e festejará apenas a si mesma
desde o dia da inauguração até quando.
Toda fantasmagoria, larga pros estrepitosos vizinhos
Toda veleidade, pro tropel das periferias
Esses vão queimar a mufa diante do lugar que fundas,
esses vão declarar guerra contra a luz que acendes
esses vão inventar nomes pro que desentendem
Nada te atinge.
(nem tédios, nem balas, nem medos)
Tu não reagirás.
Tem piedade!
Eles moram nas cidadezinhas que cercam a Cidade
ao passo que a Cidade -
inteira, muito outra -
morará em ti.

OLHO DA PEDRA

Pedra, cadê teu olho
Para que eu possa magoar com meu cálcio provisório?
Cadê teu olho, lago de mansuetude
Onde eu possa boiar qual memória da terra?
Pedra, teu silêncio é um pasmo, um susto engastado na cidade.
Onde estão, em tua carnadura, as senhas do céu de onde caíste?
Quem sabe ler teu olho?
Quem sabe não te olhar com olhos de pedra, com os meros olhos da cara?
Quem não põe lágrimas na tua erosão?
Pedra, no entroncamento de teu alheamento com a urgência dos oceanos dá-se mundo.
(Oceanos são cérebros de criaturas incomensuráveis.
Por isso ninguém pode beber o mar, por maior que a noite seja.)
Eu quero apenas ver teu olho, pedra.
Olhá-lo fundo e te dizer:
Quando, pedra, me darás a honra desta contradança?

ALEX LAURENTINO

Contra a multidão, despercebido dentro dela
Anjo adivinhando redondilhas no monturo
Louco aprisionado no marfim do ar impuro
Salvador das coisas que a voragem esfarela

Sei quanto quiseste pôr migalhas a seguro
Sublimar os frutos da indústria em aquarela
Placa, tabuleiro, extintor, scanner, tela,
Refletor, moldura te guiavam pelo escuro

Hoje eu te figuro em teu mais novo itinerário
Entregando ao Pai a tralha toda aqui do chão
E abraçando a luz de Arthur Bispo do Rosário

Hoje eu te imagino pondo a obra em revisão
E a continuando para além do calendário
Recolhendo estrelas, faxinando a imensidão

FEBRE

(- A civilização está ferida de morte?! Mas meu coração é tão puro…) Ó, condenação! sempre florir, reflorir num grande charco. Ser o pensamento que se sabe pensando e, por isso, não poder ser o herói que remontará às fontes do acorde humano! Ó, fatalidade! só poder oferecer faces ruborizadas ao escárnio e à comiseração de gente fátua. Eu quisera tanto mais, tanto esperara da juventude, mas a Aurora de Dedos Róseos só traz os mesmos pasquins estampando prostitutas e suas velhas taras humanitárias…
Acordei em delírio, a febre chegara. Evoé! Estão batendo na porta ou nos olhos? É tempo acabando? São têmperas latejando? (Tem alguém aí?) Saiu do começo da história um trenzinho carregado de provisões levando o socorro para o homem do futuro.
Eleição, mito judeu – tem música se insinuando nos caracóis de meus ouvidos – Filhos de Israel, com que certeza e terror deslocastes o eixo das rodas primeiras e esticastes o dédalo do cosmos! Que desprendimento! Depois de vós, todos os agoras ficaram irrepetíveis, e vossa diáspora, que abriu as portas da minha salvação, me lançou na angústia de saber-me irrepetivelmente não-eleito e ainda assim ser vosso herdeiro…
Tem um elo claro que só eu não vejo (mas que está aqui para quem souber ver) entre o destino do Ocidente e os 40 graus de ironia que me acometem depois da meia-noite, quando há umidade, tuberculose e begônias extáticas plantadas na lua.
Os comissários adotam meninos carentes e, sorrateiros, querem me empurrar porta adentro de seu futuro instrumentalizado. Juram que a vinda do trenzinho cheio de proteínas é inevitável, do trenzinho que trilha desde o começo dos começos trazendo as metas, as bulas, a álgebra. Esses dignos cidadãos não querem nada com minhas rosas venenosas e só lhes resta instigar minha vontade de participação: “-Você pode mais, você é um de nós, você é o oposto de você.”
Uma gota de sêmen orvalha o roseiral perdido.
O menino morreu cedo demais, antes mesmo de nascer o homem! Foi muito aplaudido pela audiência, mas acabou-se.
“-Você ainda sente apego por suas veleidades, tolo donzel? São aves migratórias que agora estão acicatando outras ambições e devem pousar na ilha do não-sei-onde. São rebanhos buscando o pasto que não há. Ou são apenas taxas quimicamente incorretas no mulambo de seu cérebro, ex-menino, moço velho, poeta prosaico, homem-homem!”
Tudo o que esses homens me dizem é a mais pura verdade, eu sei disso, e eles são da mais legítima contemporaneidade. Não tenho como apelar – apelar pra quem? E ademais, insincero não sou – minha vaidade é invejável e é claro que ela é o flanco por onde sou vulnerável (ali o Inimigo me dobra, sobretudo quando joga platibandas e olhos verdes de soslaio) pois era ela – oh, confissão suicida – era ela era ela era ela era ela que me blindava com evangelhos e cruzes antes que eu amasse a caridade, a fé e a esperança.

Estou agora no cascalho, na caliça da língua, estou aprendendo a conjugar provérbios nascidos em reivindicações de massa. Estou fazendo a glosa do comissariado. Estou sendo bem pago pelo Ministério para saquear fonemas para implodir o núcleo da gramática e ladrilhar o pensamento com interjeições e frases prontas.

Vejam os plenipotenciários, embecados, cheios de pressa: sabem que o trenzinho está chegando. Eles estão agitados, parecem concordar com minhas palavras (mas não era a febre?) “- Senhores, como sois belos, como sois plurais! Quereis que todos sejam tudo, porque assim ninguém será nada. A dialética foi engolida pela alteridade por horror à autoridade”.

Eles ensaiam uma vaia, eu lhes antecipo: “-Senhores comissários, eu nunca me responsabilizaria por minhas assertivas, ficai onde estais, eu sou um anêmico, não passo de um meta-inimigo vosso, eu nunca vos poderia destruir, sois minha razão de viver, sois a miséria que eu esmiuço, o câncer que eu cutuco, sois sempre outra coisa, nesse ponto somos o mesmo, na negação coincidimos, somos uma coisa projetada, feita de ausências inesperadas…”
O trenzinho chegou, apitando uma batida gostosinha, era a música do futuro chegando…
As vertentes da montanha ecoavam, a paisagem era um campo de forças sociais, que sublimação!
(Quanto chicletinho na boca ordinária das moças nuas!)
Mas como já podia haver sobreviventes de uma guerra que ainda nem foi declarada? Tonitruei: “- Senhores, por que esse falatório se daqui de onde falamos fica depois do fim? Se à gente não coube amar, será que precisamos dessa confabulação digna de umbrais e consultórios médicos? Pra que toda essa campanha, essa catequese, essa futuropatia? Senhores, quanto à mim é fácil: simplesmente pegai-me, manietai-me, seviciai-me, estou aqui: narina e neurose, cloaca e cérebro, para vossos gládios pós-utopistas entrarem, ó, butineiros, gendarmes, letristas, ditadores, papagenos, senadores, dentistas, rábulas, focas de redação, pedicures, doutores da família, narcoterroristas, veterinários, ciclotímicos, virtuoses, companheiros. Mas tenho uma vantagem: sei que nunca mais vou parar de acabar, estou sempre depois de mim e, fatalmente aprenderei a arte da espera. Que venham em tropel o país, o continente, o planeta, as galáxias e todas as demais províncias onde há o tempo: fatalmente aprenderei a arte da espera.”

Os comissários me derrubaram dentro de um esquife, onde puseram uma placa: “Clandestino”. Mas era justamente essa a credencial para que eu entrasse no congresso que presidiam. (Estranhos expedientes esses…) Aqueles que todos pensavam serem seus inimigos figadais eram, em verdade, os que injetavam petrodólares em suas veias. Eles nem precisavam rir para me informar seu triunfo: “Seu continente é o mesmo parque de caudilhos, militares e funcionários públicos, com uma diferença: a miséria agora é trans-miséria, orgulhe-se dela. O povo eclipsou-se: é tempo de massas. Por isso, guarde com você, no escrínio de seu lirismo de araque, as lágrimas de crocodilo do rebotalho,
pleiteie um lugar ao sol para seus versos, finja que está a conclamar um novo canto geral. Para ser o poeta de seu tempo, basta cumprir duas regras: antes, tem que descobrir a alegria de ser um cidadão quase livre numa democracia teatral. Depois, tem que esposar um igual.” E todos embarcaram no trenzinho, rumo a não sei onde.
O Coro foi se distanciando, e, como repetisse “casar iguais, casar iguais”, obstinado, forjei no fogo baixo da impotência um pensamento inútil: “-Então por que não aproveitais o ensejo para casardes com o próprio Satanás?” Dito inútil: essa era precisamente a arte em que aqueles cáftens mais se destacavam, e nisso, como em tudo mais, parecidíssimos comigo: eles pensam em tudo, eu idem, eles são os que se pensam sem parar e eu também, nunca me abandono, nunca deixo Deus agir em mim. Se digo ‘Deus’, é um ideal que fulge. Não sendo Deus o Deus que digo, não são meus os pés com que piso, não são minhas as mãos com que pego, não são meus os olhos com que vejo e cego.
Não sendo Deus, é sempre nada é promessa é ânsia é nostalgia é passagem é dissipação é gasto é mais-valia é luxo é superfaturamento é apólice é promissória é dom desperdiçado é naco é nesga é ninharia é coisa é cisma é raiva é ócio é mágoa é mácula. Não é Deus. Deus é o Mesmo. Nem fora nem dentro – unitotal. Pensável só para os perpetuamente concentrados. Amor dos amores, vida de vidas, alma d’almas.
E nós quebrados, pensos, analfabetos da única língua que vale ser resgatada…
- Parece que a febre está cedendo e tem alguém batendo na têmpora e a tromba de sangue não força mais a porta do meu quarto de convalescente. Olho as paredes, diviso uns quantos pictogramas, como ardentia boiando. Olho o caderno em branco e uns vocábulos risonhos me ocorreram: reverdecimento. Estas linhas são arteiras, são artérias, são argueiros? Parece que tem um riso já não acre querendo se formar em minha cara. Estou vendo que tudo não passa de tudo que não passa, mas ainda desentendo muito as implicações disso.

ECLESIASTES GNÓSTICO

As horas despencavam no vazio,
Giravam dias como turbilhões,
Os anos arrastavam seus grilhões
Há séculos no pó do casario.

Milênios, eras, civilizações
Boiavam no sem-fim de um céu baldio.
De sóis e estrelas não restava um fio
E o nada já vidrara as multidões.

No instante em que a matéria devolvia
Ao átomo primeiro a dor de ser,
A mesma nesga pela qual caía

O resto de universo, eu pude ver
Tornar-se um vão nos flancos de Maria
E o mundo, um Cristo morto a renascer.

Em tempo…

…são-foram-eram-serão meus parceiros, além dos que foram citados na matéria “Geração fora do tempo”, de quarta (22 de fevereiro de 2012) n’O Globo, os seguintes viventes:

Cezar Altai, artista plástico e compositor
Daniel Marques, compositor e guitarrista
Marcelo Noronha, compositor e engenheiro de som
André Félix, cineasta e compositor
Álvaro Gribel, compositor e cantor
Marcelo Pêra, diretor da Delira Música
Alberto Bellezia, o homem da câmera
Rodrigo Ponichi, cineasta e compositor
Antônio Máximo Ferraz, poeta e tradutor
Mariana Baltar, cantora
Simone Guimarães, compositora e cantora
Thiago Thiago de Mello, compositor
Ivo Senra, compositor, arranjador e pianista
Marcelo Fedrá, compositor
Renato Frazão, compositor
Eber Pinheiro, engenheiro de som
Daniel Lobo, ator e diretor teatral
Rodrigo Zaidan, compositor e pianista
Guto Brinholi, compositor e contrabaixista
Anamaria Sobral, atriz
Cintia Graton, cantora
Ilessi, cantora
Aline Paes, cantora
Marília Schannuel, cantora
Anita Moreira, desenhista
Vidal Assis, compositor
João Sholl, compositor
Renata Macedo, compositora
Alex Barbosa, designer
Gloria Calvente, cantora e professora
Josimar Carneiro, violonista, compositor e professor
Fernando Silva, técnico de som e contrabaixista
Poiko, compositor
Maurício Detoni, cantor e compositor
Zé Paulo Becker, compositor e violonista
Gabriel Geszti, pianista e compositor
Marcelo Caldi, pianista, acordeonista, compositor, cantor e arranjador
Alexandre Caldi, saxofonista, flautista e compositor
Rui Alvim, clarinetista
Matias Correa, contrabaixista
Luciano Correa, violoncelista e compositor
Gabriel Grossi, gaitista
Jorge Andrade, poeta e compositor
Gabi Buarque, cantora e compositora
Cissa de Luna, cantora
Ilana Volcov, cantora
Adriana Branco, fotógrafa
Felp Scott, fotógrafo
Danilo Yamanaka, fotógrafo
Gretel Paganini, violoncelista
Pablo Uzeda, violoncelista
Drica Voivodic, produtora
Andre Siqueira, compositor e guitarrista
Anderson Benac, compositor
Thiago Aquino, baterista e compositor
Julio Guedes, poeta e professor
Adriano Espínola, poeta
Rodrigo Penna Firme, compositor
Cristiano Sauer, cantor e compositor
Júlio Merlino, flautista e saxofonista
Fred Castilho, baterista
Fabiano Salek, percussionista
Vinícius Castro, compositor e cantor
Joana Queiroz, clarinetista e compositora
Naife Simões, percussionista
Dhyan Toffolo, violinista
Antônio Loureiro, compositor e multiinstrumentista
Antonio Jardim, compositor
Isabel Veiga, cineasta
Luiz Gonzaga da Silva, compositor
Giovanni Iasi, compositor
Luciano Garcez, compositor e poeta
Aline Brufato, dona do Bar Semente e produtora
BJ Bentes, baixista
Eveline Hecker, cantora
Leandro Soares, trompetista
Larissa Goretkin, flautista
Alex Laurentino, poeta e iluminador
Edison Nequete, poeta, ator, radialista e jornalista

Nem todos ainda são viventes no tempo. Mas meu trabalho presente, prenhe de tempo, é graças a todos.

Aforismos da madrugada

Para Thiago Thiago de Melo e André Félix

 

Tudo que não cabe no jornal interessa.

 

Meus parceiros e eu somos o lado B do disco, aquele que pode ser ouvido como a continuação natural ou como a negação do lado A. Depende de como o ouvinte ouviu o lado A.
Mas para ouvir o lado B, há que virar o disco.
Na era pós-CD mais ninguém vira discos, é claro. Ainda assim, e aliás, por causa disso mesmo, o que somos é o lado B.

 

A entrega ao fluxo do presente não é um fator determinante da arte, pode ser ou pode não ser. Há arte nascida da afirmação vigorosa do presente, mas há também arte nascida da polêmica deliberada contra o presente.
E há uma arte situada na própria tensão entre ontem e hoje. Pensamos que essa é a que descortina o amanhã possível. É aí que a gente se situa. Estamos num tempo de terceiras vias? Então somos a terceira via. Ou, se já houver três vias, a quarta. Mas sempre a outra.

 

Tudo o que é relevante em matéria de arte nasce sem código. Isso não é acidental, mas sim essencial à questão da arte. Aliás, permanece sem código pra sempre, por mais que vire canônico. O cânone nada mais é que é a inclassificabilidade disfarçada. É um modo que a cultura tem pra se proteger do inaudito.
Por isso, o jovem compositor tem mais é que buscar estudar e entender o cânone, porque ali é que está o perigo. Nenhuma rebeldia, nenhuma desconstrução, nenhuma atitude tem mais poder fundador do que a dos que hoje parecem velhinhos num museu. O lance é saber ouvir a perene modernidade em Noel Rosa e Dorival Caymmi e aprender o que tem de perene na modernidade. Não para fazer igual, nem sequer parecido. Ao contrário, para ter finalmente o direito de fazer o diferente.

 

Na verdade, somos muito velhos, de uma velhice assombrosa, porque os maiores jovens do Brasil têm hoje 65 anos.

 

Não ter mais que lidar com o policiamento contra o rock’n roll é um avanço.
Não ter mais que lidar com a crítica ao rock’n roll é um retrocesso.

 

A negociação entre música e juventude dá sinais de não estar conseguindo mais sair do campo dos negócios para o campo das artes.

 

Apresentar o vigor da banalidade contra os projetos totalizantes do intelecto teve uma função verdadeiramente catártica para a dinâmica da nossa música. Quando essa ação era empreendida por uma composição intelectuais/ majors, ela ganhou o nome de Tropicália.
Hoje que ela saiu das mãos dos intelectuais graças ao advento da Internet, e ganhou a praça através da ação do próprio “homem da periferia”, ficou claro que os intelectuais têm que encontrar alguma outra ocupação ao invés de permanecerem sendo esse misto de mestres de cerimônias e professores de antropologia.
Essa outra ocupação talvez fosse aprender a pensar a diferença entre a cultura e a arte.

 

No Brasil uma das armas mais letais que a cultura já brandiu contra a arte chama-se música.
Mas Clementina, Cartola, Nelson Cavaquinho, Aracy de Almeida são a própria arte brasileira.

 

Pensar que o campo da música popular pode ser um campo artístico não é um problema para a direita, mas é uma questão para a esquerda.
Não é problema para a direita porque ela nega de antemão essa possibilidade, colocando-a fora da discussão como uma perversão populista do fenômeno artístico.
É uma questão para a esquerda porque ela quer tirar partido dessa possibilidade, apresentando como fenômeno cultural o que, como arte, é irredutível.
Posto assim, parece que o caminho esquerdista é o mais tolerante.
Resta saber o que é mais letal para a arte: o exílio ou a lobotomia.

 

Superar esquerda e direita é o grande desafio da vida do esquerdista Caetano Veloso.

 

A discussão sobre letra e poesia é toda equivocada. A letra de música não passa de letra de música e a poesia não passa de… letra de música.
Numa letra de música a poesia dança. Num poema a poesia dança, senão não é poesia.
É uma discussão infrutífera porque não procura pensar no que é a música.

 

Por mais que criemos e nos esforcemos e sejamos bem sucedidos, nossa geração estará na sombra de gigantes. O que fazer com os gigantes, se não se é o rei Davi? Ora, acomodarmo-nos em seus ombros!

 

Hoje em dia todo mundo se acha no direito de perguntar a você (só porque você é compositor) se está ganhando dinheiro, se está fazendo sucesso, se está vendendo.
Ora, ninguém pergunta pro médico se ele está clinicando o suficiente para pagar as contas!
Que falta de educação!

 

Santo Elomar da Carantonha é um tapa na fuça do projeto moderno.

 

Vivenciar a modernidade como uma doença é fundamental antes de aceitar a modernidade. Quem aceita incondicionalmente a modernidade vira ou genocida ou telletubie.

 

A crítica implacável à modernidade também pode não passar de um modo de suicídio.

 

A cultura tem muito poder quando sabe usar a dança contra as pretensões de totalização da razão.
O transe, o êxtase, o passo sincopado – tudo isso é o saber do corpo, contra ele não tem nada que possa.
Mas chega um momento em que essa ação da cultura se flagra como puro narcisismo intelectual e percebe-se que desse modo a dança virou mera arma contra heranças consideradas “metafísicas” advindas de uma cultura eurocêntrica.
Nessa hora, a razão tem que escolher entre deixar a dança dançar ou seguir colada à dança como o sucedâneo de seu substrato mais profundo – coisa que ela não é.
Se forem capazes de viver esse escândalo, os amantes de “cultura popular” da Zona Sul do Rio de Janeiro aprenderão o quanto a vida é brincante.

 

Uma das marcas que caracterizam um pedante é sua aplicação do termo “muita informação” a um determinado tipo de música.
Clichê até não mais poder, esse termo revela imediatamente o contato superficial e mal digerido de umas quantas noções de teoria da informação adquiridas no primeiro semestre da faculdade de música, de letras ou de jornalismo.
O leigo muitas vezes se aproxima de uma música dessas com mais pureza e absorve mais e melhor essas “informações”, simplesmente porque pra ele não são “informações”, mas a própria música fluindo.

 

Numa faculdade de música se aprende técnica e a arte do convívio com seus colegas. Nunca se fala de arte.

 

O especialismo faz a gente acreditar que o letrista não pode escrever arranjos, que o pianista não pode dançar, que o iluminador não pode cantar. Se você faz muitas coisas bem, deve ser porque você é arrogante.

 

O maior xingamento para um compositor é dizer que ele é bom letrista. Ele se sente como uma namorada na flor da idade quando escuta do namorado: “Quero casar com você porque você tem bom caráter”.

 

Quando Cazuza disse que “precisa de uma ideologia pra viver”, ele ajudou a arrancar dos brasileiros a intuição a respeito da dimensão não-política da vida. Acontece que é só dessa que nasce a arte.

 

No Brasil, pensa-se que não se faz boa arte porque não se tem boa causa.
E se for porque todas as causas são boas demais?

 

O lirismo velho se renova investindo numa certa violência. Desse transe pode nascer a vontade de parar de vez. Mas se a atravessamos, aí somos dignos da alma dos violinos.

 

Parece que boa parte da sobrevivência do mito da MPB é devida à exploração midiática da aura do dependente químico: Maysa, Tim Maia, Elis Regina, Cazuza, Renato Russo, Cássia Eller.
Vide aquele programa da TV Globo chamado “Por toda minha vida”.

 

A TV Globo é a dona dos arquivos. É inútil lutar contra seu caráter tentacular.
Há que falar outra língua.

 

Desaprender a língua da mídia é a única coisa recomendável a quem queira renovar alguma coisa em matéria de arte.

 

Enquanto a frase de Schoenberg “Se é arte não é popular, se é popular não é arte” só puder ser entendida como manifestação de preconceito, não se avança na discussão do que é arte e do que é popular.

 

O relativista cultural quer engatinhar já podendo andar.
O fundamentalista cultural quer marchar sem ter nem engatinhado.

 

No Feicibuqui se aprende a emular presença de espírito.
A música que se cultiva na era do Fecibuqui é a música que aprende a emular presença de espírito.
O Espírito, que sopra onde quer, pode soprar aí também.

 

Uma das coisas mais constrangedoras para o intelectuário da esquerda CPC da UNE devia ser a sincera fé cristã de Nelson Cavaquinho.

 

Um dos sinais da ausência do ‘novo’ em algum trabalho dito ‘novo’ é o modo elogioso como alguns medalhões se referem a ele.

 

A superficialidade pode realmente gerar melhor arte do que a profundidade. Isso é que é de ma-tar!


Ninguém faz o que quer da música. As ilusões de domínio do homem sobre os objetos caem todas por terra quando se chega diante da realidade da música.
Talvez ela seja mesmo a linguagem mais próxima da divina.

 

Sob a égide do niilismo a música talvez tenha mesmo que ser a “canção expandida” tal como foi exaltada por Wisnik. Isso pode ter uma espécie de inevitabilidade como a da curvatura do arco do destino ocidental.
Quem quer sorver até a última gota o veneno do Nada do nosso tempo tem que aprender a passar a tarde estourando plástico bolha.
Quem matou Deus e viveu essa morte como um destino histórico inexorável chegaria aí, no plástico bolha. Era inevitável.

 

Estamos no tempo do plástico bolha.
Karina Buhr teve uma iluminação.
Eu sou um herege.

  

Minas Gerais quando quer manda na beleza da música do Brasil. Quando não quer, faz miçangas e vende na estrada.

 

Reconhece-se um tradicionalista da MPB pelo uso desesperado que ele faz dos juízos de valor e pelo seu sentimento de impotência diante das trans-valorações que absolutamente não entende.

 

Uma guitarra elétrica ainda pode fazer barulho?

 

Alguém escutou um silêncio por aí?

 

Quando Chico Buarque fala do fim da canção, quase tudo o que se gera é desejo de reação ou de adesão. Em ambos os casos, quem fala mais alto é o jornalista.

 

No mais, quando Chico Buarque especula sobre o fim da canção, talvez isso a liberte de seu fardo histórico. Talvez agora sim a canção se assuma como o que sempre foi: linguagem da alma.

 

Segundo uma leitura linearista, a canção acaba dando vez ao rap e à canção expandida.
Segundo uma leitura espiralada, a canção acaba para se permitir entrar no campo do poema sinfônico, do cinema de arte, da investigação filosófica.

 

Decretar que um determinado discurso é inacessível para o povo sempre foi tarefa para um tipo de elitista cultural.

 

Resta saber se aquele que decreta que a música de fulano é incompreensível para as massas seria capaz de compreendê-la em seu coração.

 

Trabalhar com ficções: como se a música não fosse uma ação do ser inteiro, mas sim do profissional de música; como se a crítica de música não fosse uma ação do ser inteiro, mas do profissional de crítica.
Depois desse arranjo cômodo, passar a raciocinar assim.
Pronto: temos uma geração. A isto chama-se uma geração.

 

Nos anos 60 a geração fincou pé nas ciências sociais. Do CPC da UNE ao tropicalismo, tudo noticia um ideal de síntese sócio-cultural, fomentado em debates a respeito do que é povo, cultura nacional, influência estrangeira, transformação comportamental, revolução, etc.
Hoje a geração fincou pé no jornalismo e na publicidade. O que se busca é eficácia comunicativa, poder de persuasão, adesão à linguagem do grupo, aparência de confiabilidade, ostentação de tolerância com a diferença.
Tomados em si mesmos, nenhum dos dois paradigmas garante boa arte. O que a garante é o conhecimento de algo incomunicável, e não obstante, o poder de comunicá-lo.
Nada mais.

 

A maledicência tem sido a especialidade do cancionista contemporâneo.

 

O músico sai do Brasil e volta despejando muxoxos sutis e aparentemente despretensiosos sobre muitos dos fatores que o formaram.

 

O erro técnico quando é pensado estrategicamente paralisa o ouvinte.
O erro técnico quando é adotado depois de descartadas todas as outras opções move o mundo.

 

Poucas vezes quando se fala de problemas técnicos não se está querendo falar de estética.

 

Quando precisarem de ódio, que a música dê o amor.
Quando precisarem de amor, que a música dê o amor vestido de ódio.

 

Ficar inacessível é, para uma geração respeitável, o modo mais elegante de estar morta.

 

Dias de hoje:
há quem pense que pode administrar a carreira para depois enxertar o fator poético em seu discurso.
Na próxima geração, este tende a ser considerado o grande poeta da geração precedente.

 

Tanto o milionário quanto o intelectual esquerdista (que muitas vezes são a mesma pessoa) ostentará preocupação com o povo quando se descobrir incapaz de entender uma determinada música.

 

Quando se fala do artista, recorrer a categorias como egoísmo, pretensão, falta de humildade, é como recorrer às noções de agressividade e selvageria para censurar a sanha dos tigres.

 

Os únicos artistas realmente arrogantes são aqueles que, montados num mega-esquema midiático e ideológico, se tornaram os porta-vozes do “homem-médio-gente-boa”.

 

Hoje ninguém vê o povo para poder querer falar pra ele com sua música. Vêem-se apenas números.

 

Apresentem-me uma estratégica eficaz de uso da máquina para bons fins artísticos.
Creio mais, isto sim, que alguma coisa boa possa ser gerada assumidamente dentro da máquina.

 

Se se pensasse mais na morte, far-se-iam melhores músicas.

 

Do polemismo nasceu a discórdia. Na crítica ao polemismo se espojará a estupidez.

 

Não aos purismos, não aos hibridismos.

 

Pode ser que a música sofra muito menos com o advento do funk do que com a recusa obstinada de lidar com ele.

 

Na música só amo um modo de lidar com a cultura: guardando-a em meu desconhecimento.
Não é desprezo, não é recusa, não é nojo: é a sagrada inocência.
Não peço outra coisa das Musas.

 

Lendo jornais, aprende-se a pensar que a eternidade é um discurso opressor oposto à saúde da efemeridade.
As coisas perdem realidade, horizontalizam-se.

 

O artista estratégico tem uma vantagem sobre o artista ingênuo: pensa-o como um signo entre outros.
Mas o artista ingênuo é quem inventa chãos.

 

O artista ingênuo não compreende o artista estratégico nos termos deste. As Musas o resguardam dessa queda.

 

O artista ingênuo, não sabendo bem o que pensar do artista estratégico, parece, aos olhos deste, um não-pensante.
Mas quando o artista estratégico percebe que ainda há visgos de céu na obra do artista ingênuo, quer se matar quando lhe sobra ainda caráter.
Quer colonizar o céu do ingênuo, quando perdeu toda a esperança.

 

‘A música não pertence ao artista ingênuo’, assim pensa o artista estratégico. ‘A música não pertence a ninguém, porque ela é uma construção. Portanto, posso simular com minha música que vejo as portas do Céu.’
‘A música não me pertence’, assim pensa o artista ingênuo. ‘Não sou digno das portas do Céu, mas vou cantar para ver se elas se abrem.’

 

Sei de compositores que resolveram com estrutura o que lhes faltava em inspiração. Pareciam algozes.
Sei de outros que aniquilaram a inspiração de tanto desprezarem a estrutura. Pareciam flagelados.
Finalmente sei dos que resolveram a questão sem sequer deixar suas marcas no caminho. Eram anjos.

 

A grandeza de Mozart estava no fato de que, identificando-se com a gravidade de Tamino, nunca desprezou as tolices de Papageno.

 

 

Melancolia

 

“Como está sozinho cada um no túmulo descomunal do Universo!” (JEAN PAUL, em “Discurso do Cristo morto, do alto do Universo, sobre a Não-existência de Deus”)


Melancolia, o filme de Lars von Trier, gritou assim pra mim: “- A vida não vale ser vivida, você é um iludido, o melhor é que tudo se exploda!” Em réplica ao filme, pretendo balbuciar umas palavras.

Antes de tudo, rendo homenagens à habilidade imagética do diretor.

As imagens do prólogo, inspiradas em John Everett Millais, Pieter Bruegel e Andrei Tarkovski e, já no meio do filme, a cena em que a personagem de Kirsten Dunst se entrega nua aos influxos do planeta que destruirá a Terra seguramente estão entre as sequências mais marcantes da história do cinema. E o fato de Tristão e Isolda, de Wagner, ser a música sobre (sob?) a qual essas imagens se tecem, dá ao filme uma beleza que, de tão dolorosa, se torna quase insondável. Não obstante tentarei sondá-la, afinal essa beleza tirou o meu sono e tem tirado o de algumas pessoas que conheço.
Começo com uma proposição retórica em forma de equação: O Belo – O Bom = O Terrível.

-Como assim?! Depois de tantos séculos de intromissão de noções morais no campo da arte, e da libertadora crítica a esse paradigma, você teima em tornar a aplicar conceitos como “bondade” e “ruindade” ao campo da estética?

Já prevejo esse dito: ele subjaz à leitura que os esteticistas mais empedernidos possam fazer deste texto. Mas não consigo não pensar que, para defender a autonomia da arte, esses senhores geralmente acabam querendo que a arte se nutra de outra seiva que não a da vida. Se não sei o que é a vida, mas quero viver, como posso, em nome da contemplação de uma beleza plástica que parece querer me fazer duvidar se a vida vale mesmo ser vivida, excluir da reflexão sobre a arte todas as perguntas que giram sem parar em meu pensamento, sejam elas de ordem estética, moral ou metafísica?

Em parte escrevo este texto para dizer que penso que, se por um lado a “suspensão da descrença” é fundamental no ato de contemplação de qualquer obra; se é desejável que não nos ponhamos a discutir com a obra enquanto ela transcorre, julgo igualmente desejável que permitamos que essa obra, uma vez vista, ganhe para nós sua posição no quadro maior do real. O que pode acontecer a partir daí é incerto: ela pode ser esquecida dentro de alguns minutos, ou ela pode vir a se tornar a chave de leitura de tudo o que existe; ela pode nos levar a rever e negar valores, ou pode endossar pensamentos há muito arraigados. Ora, justamente por haver múltiplas expressões artísticas, múltiplas manifestações da consciência humana e incontáveis modos de elas se relacionarem, eu julgo que não podem faltar nem aspectos estéticos nem aspectos morais em uma discussão ampla sobre essas relações da arte com a consciência (que é o que me interessa aqui). A tentativa de expulsar todo e qualquer viés moral das discussões sobre a arte é como amputar uma das dimensões da própria arte: sua alocação na vida do homem, sua capacidade de afetar. Vira uma discussão entre scholars.

Há também a voz dos homens vulgares, à qual sou pessoalmente mais sensível, pois ela vem em milhões e amplificada, e me diz: – Não delira! É só um filme…

Curioso… Ao ouvi-la, constato que sob a voz daqueles esteticistas soa, em sentido oposto, a mesma frase dita por esses homens vulgares: – Não delira! É só um filme…

Que alguns eruditos tenham se encaminhado para essa abordagem puramente esteticista do problema artístico não deve desencorajar quem intui que a arte se inscreve num campo de possibilidades mais vasto que o que eles, eruditos, abarcam com seus sofismas. É certamente mais descolado quem se atem aos aspectos secundários de Melancolia, os compendia numa coluna de jornal e ao fim declara que ele é um sui generis mero filme de diversão. Mas algo diz a algumas outras pessoas (que talvez estejam olhando as coisas com olhos mais abertos) que esse filme é muito mais que isso.

Aqui mora o perigo: a moral já está querendo se imiscuir no comentário estético e a elegância blasé que, se eu tivesse, poderia me garantir algum espaço nos suplementos culturais, já está se deteriorando de novo em inocência apocalíptica. Pode chegar o momento em que, exasperado, eu diga uma frase que não pegaria bem entre homens descolados, uma frase como “Se o câncer tivesse uma face bonita, ela seria o filme Melancolia.” Oh, que gafe!

Mas o que fazer se, depois que a protagonista Justine, com olhos quase mortos, diz à sua irmã: “Eu sei que estamos sós, que a Terra vai acabar, que não há vida além, que não se perde grande coisa”, o planeta-câncer Melancolia se choca com a Terra, explode tudo, acaba o mundo e – pior – acaba o filme? Que fazer quando o diretor, provando que essa mesma “heroína” é detentora da chave do real, nos induz a crer que essa chave se chama “melancolia” e que o sentido do real se chama “aniquilamento”? Que fazer quando todas as belezas que se abrem em flor na tela grande apenas nos afirmam que não há nenhuma esperança, que a vida é nada?

E se esse nada não for o nada de que falava São Francisco de Sales, quando dizia que “orar é oferecer a Deus o seu nada”? E se for, ao contrário, o Nada da náusea, experimentado como patologia e, pior, como cosmovisão?
(Aqui uma voz intrusa me sopra uma frase que acho que vale um minuto de atenção: ­ ­­- O niilista difere do místico em um ponto básico: o místico sabe operacionalizar o nada, o niilista não faz nada do nada).

É claro que estou dando vazão a uma leitura em linha reta da obra. Há uma ciranda de sentidos em tudo o que os artistas fazem, e daqui a pouco eu mesmo prometo abordar sob um aspecto mais luminoso o filme. Por enquanto eu sôo como o Inquisidor. Sei que tenho muito menor simpatia das “pessoas legais” que os que falam apenas em nome do gozo estético. Eu pareço estar falando em nome de uma moral monolítica e em minha voz os homens “esclarecidos” que lêem jornais podem adivinhar tons de medo e recalque. Sobretudo, meu crime é falar com uma voz que parece de outra época. Mas vou falar assim mesmo, porque julgo que aqui não cabem essas divisões.

Pra começo de conversa, eu peço que todos pensem se, em seus filmes mais perturbadores, Bergman já perdeu a simpatia pela ideia mesma da vida, se Buñuel já deixou de emprestar seu riso ao nosso absurdo ou se Fellini já perdeu a compaixão por seus personagens. Peço que pensem nisso, revejam o filme de Lars von Trier, acompanhem minhas palavras e depois respondam: a linha reta está mesmo nesta minha tentativa de não me deixar enredar pelas belas aparências do niilismo ou no destino cego do planeta Melancolia?

Além de reconhecer e exaltar a inegável beleza da obra, além de continuar sofrendo seu impacto, eu preciso ir além, sem medo de tentar penetrar em seu(s) sentido(s) e, talvez, errar feio. Só então poderei saber que nervo ela me feriu e, se possível, curá-lo.

Creio que um bom caminho nessa direção seja abordar a presença de Tristão e Isolda no filme. E como Friedrich Nietzsche tem sido constantemente lembrado quando se escreve sobre Melancolia, aqui também será seu pensamento que servirá de baliza para nos acercarmos da obra wagneriana. Para os fins deste texto, pouco importa que num outro momento de sua obra as considerações de Nietzsche sobre Wagner tenham praticamente invertido em relação às que trago à baila aqui. E também pouco importa que em Nietzsche os conceitos célebres de ‘apolíneo’ e ‘dionisíaco’ (que usarei fartamente) sejam um pouco rígidos e esquemáticos: a questão é o uso que Lars Von Trier faz desse esquema, o efeito que alcançou a partir dele.

Segue uma longa digressão.

Em seu primeiro livro O nascimento da tragédia, escrevendo sobre a origem do teatro grego no culto religioso ao deus Dionísio, Nietzsche, antevendo uma nova eclosão do ‘mito trágico’ na Alemanha de sua época, acaba exaltando Tristão e Isolda como o grande feito nesse sentido. O arco que se abrira na Grécia estaria destinado a tornar a se abrir na Alemanha, o que poderia ser o começo da grande reação contra o paradigma socrático, que teria culminado com o triunfo do cientificismo. Vejamos a compreensão que Nietzsche tinha da importância do fenômeno musical.

Para a metafísica artística que Nietzsche herda de Schopenhauer e desenvolve neste livro, a música é a manifestação mais imediata da Vontade. A Vontade é o núcleo do universo e se singulariza e multiplica nas individuações fenomênicas, neste mundo de tempo, espaço e causalidade – o mundo. Sendo reflexo imediato do núcleo das coisas, a música tem outra natureza em relação aos demais fenômenos.

Daí deduz Nietzsche, especulando sobre as origens dessa estranha forma de arte chamada “tragédia”, que somente da música (do coro dos sátiros) nós poderíamos extrair alguma alegria do fato de estarmos presenciando a aniquilação do herói. Afinal, no âmago da música não há o princípio da individuação: ao contrário, a música nos faz experimentar a Vontade em toda sua potência, convidando-nos a regressar ao Uno indiviso, dissolver-nos, aniquilar-nos. E nela, isso que seria intolerável, nos é até mesmo… aprazível!

O deus que o homem grego via reger essa esfera terrível e fascinante era Dionísio, o deus despedaçado do qual nasceram os elementos. Segundo o mito, corre pela natureza seu lamento, numa nostalgia da unidade: é o lamento do deus desfeito em ar, terra, fogo e água, que anseiam pelo regresso ao Uno; portanto, pela aniquilação do mundo dos fenômenos – o nosso mundo.

A tragédia teria nascido exatamente quando Apolo, o deus das medidas, das aparências, dos sonhos, das imagens épicas, se interpôs entre o homem e a força dissolvente de Dionísio, engendrando uma forma artística em que os impulsos apolíneos (expressos na estória) se aliaram aos dionisíacos (expressos no coro). Os deuses fizeram um pacto.

Na tragédia, ensina o pensador, a estória seria a ilusão salutar a nos proteger da violência da música, uma espécie de sonho que sonhamos enquanto estamos sob o feitiço dionisíaco. Mas o saber iniciático, apontado para a unidade de todas as coisas sob as aparências, residiria mesmo é na música. Com base nessa leitura, cada tragédia seria, do ponto de vista da estória, um épico; do ponto de vista da música, uma obra religiosa, orgiástica e sempre misteriosa. E, assim, o grego teria conseguido uma síntese sublime.

Voltando a Wagner: o autor do Nascimento da Tragédia, enxergando em Tristão e Isolda parte da grande resposta que o “ser alemão” estaria destinado a dar ao mito trágico grego, tece algumas considerações sobre os modos como a dimensão dionisíaca se relaciona com a apolínea numa obra como a wagneriana. Nela, o deus orgiástico passa o tempo todo ‘falando a língua’ do deus onírico, na medida em que uma teia dramática e imagética recobre e individualiza a música. Esta, portadora de uma carga de contradições e tensões para cuja crueza o homem poderia não estar preparado, traz, em última instância, o anseio violento pela aniquilação do mundo fenomênico, sendo, como é, expressão direta da Vontade universal. Mesmo assim, ao término da obra, Apolo se revela Dionísio: é quando o véu das aparências se desfaz sob a certeza de que experimentamos algo além de uma mera estória. Neste momento, podemos até não pensar que o drama específico (deste Tristão e desta Isolda) poderia ser outro, podemos não saber que as cognições e disposições de espírito foram determinadas mesmo pela música, podemos desconhecer que foi ela que “interpretou” aquele mito, podemos continuar pensando que presenciamos apenas uma estória ultra-potencializada pela música… Mas não: se saímos transformados, sabedores de algo que, quando vamos tentar explicar, não é explicável nos termos factuais da estória a que assistimos, então é porque, sob as artes de Apolo, Dionísio pôde agir plenamente sem nos aniquilar. A maré montante de intensidade do deus orgiástico nos arrastou até seus domínios sapienciais, e nós julgávamos que eram as figuras da cena que sobre ela boiavam que nos estavam levando…

Pois bem…

Parece-me que Lars von Trier concebeu Melancolia como uma subversão desse pacto entre os deuses: ele desterra o apolíneo (o mediador), na medida em que a estória que nos conta é a do próprio aniquilamento de todo o mundo (e não apenas de uma sua aparência materializada num herói trágico), e ainda reforça nosso desamparo nos arrojando no coração da música de Wagner, que, nesse contexto, já não pode nos soar deleitosa: soa apenas tremenda, já que sua ‘objetivação’ se dá nas imagens da destruição irremissível e total. Como não bastasse, está banida do filme qualquer intuição trágica (e religiosa) a respeito da vida eterna da Vontade por sob a aniquilação deste mundo. Ou seja: a música se revela estertorante, tonitruante, imediata, crua como os sons produzidos involuntariamente por um organismo em transe de morte: é a voz do Uno sim, mas em estado de falência múltipla.

(Talvez antes do filme de Lars von Trier, os homens civilizados e ‘livres’ nunca tivessem sabido como a música pode esmagar: mérito do dinamarquês.)

Ao fim da sessão em que vi Melancolia, parte da plateia urrou e aplaudiu freneticamente. Será que, inconscientemente, essa gente sentiu que a explosão do mundo é o único alívio possível quando se é esmagado pela música, sem a mediação luminosa da estória? Afinal, Melancolia não nos dá exatamente uma imagem luminosa capaz de blindar a música: conta a última estória, da qual o homem sai derrotado. Ou, vendo pelo ângulo oposto o mesmo fenômeno: em Melancolia, a música não está para nos fazer vislumbrar a eternidade da Vontade, mas para ressaltar a aniquilação fenomênica total.

Para esclarecer melhor a diferença entre o consolo metafísico que se depreende da tragédia grega e o total niilismo que se depreende de Melancolia, traçarei um brevíssimo paralelo entre a estratégia do filme e a da peça Édipo Rei, de Sófocles (aliás, mais um exemplo aduzido pelo Nietzsche do Nascimento da Tragédia). Enquanto Sófocles nos ‘protegia’ da sabedoria de Sileno (o sátiro acompanhante de Dionísio que, segundo o mito, disse ao Rei Midas que “a melhor coisa para o homem é não ter nascido; uma vez tendo nascido, é morrer logo”) com o desvelamento gradual do sentido supra-individual da estória desventurada do Rei Édipo, Lars von Trier concentra em sua heroína sintomas psicológicos, cosmovisão, dom de profecia e poder de julgamento – além do dom de artífice, de que falarei mais adiante. Ou seja: nela estão enfeixadas todas as dimensões humanas – e todas vão se extinguir em breve.

Assim, não há possibilidade de o desvelamento gradual de sua estória ser recolhido pelas inteligências dos espectadores como o patenteamento de uma realidade para além de sua aniquilação mesma, ao contrário da estória das desventuras do Rei Édipo que, à medida que transcorre, vai se revelando a expressão de uma justiça cósmica. Aliás, em Melancolia, a conjugação de um certo naturalismo de afetos (depressão, intrigas familiares) com a completa imanentização do fim do mundo (sob os encargos de um planeta caoticamente em rota de colisão com o nosso), faz com que apenas possamos ver uma personagem sozinha (deprimida), falando que “estamos sozinhos no universo” (cosmóloga), que “tudo vai acabar” (profetiza) e que “não se perde grande coisa” (juíza). Não resta espaço para nenhuma transfiguração possível, como em Édipo. A não ser que o escandinavo esteja tramando um Justine em Colono, a homologia entre desejo de morte e desastre cósmico é mesmo o sentido final de tudo. E acabou.

Aliás, Lars von Trier deve achar a continuação de Édipo Rei (em que o sofrimento do herói trágico foi tamanho que os céus lhe conferiram dons sobrenaturais) uma concessão, digamos, hollywoodiana. Sua integridade artística não lhe permitiria fins tão redentores.

Há, evidentemente, uma outra chave de leitura para Melancolia, se seguirmos a “imagem luminosa” da transformação existencial da personagem, mas para isso temos que fazer abstração de tudo o mais que não seja sua psique. Tentemos, ainda assim, ver o filme como pura odisséia psicológica.

Antes, Justine nos aparece doente e derrotada aos olhos do mundo burguês; depois, ela se torna corajosa e forte ante o fim do mundo. Seu sofrimento a teria ensinado a prescindir de tudo e ela teria triunfado sobre a morte. Em tese, ela já estaria depois da morte quando demonstrou à irmã que é indiferente em relação ao fim do mundo.

Visto sob este ângulo, o filme parece ser o oposto de tudo o que eu disse: o triunfo da vontade sobre a depressão, argumento que talvez possa ser reforçado pelas declarações do próprio diretor a respeito de sua superação de um quadro de depressão profunda.

Há, porém, um empecilho para que eu aceite plenamente que esse sentido é realmente luminoso: fora de Justine tudo o que se vê é hipocrisia ou alienação. A hipertrofia do eu da personagem é tamanha que está expulsa do filme toda e qualquer imagem da compaixão e da interdependência entre os homens, salvo quando estas se expressam como necessidade de diminuição da consciência do ente amado, o sobrinho. Penso aqui na construção da “cabana mágica”, proposta pela “heroína” para dar ao menino a ilusão de proteção da morte inevitável que ela, estóica e consciente, aceita plenamente.

É claro que a obra, vista por esse ângulo, deixa de ser apenas terrível como eu a vivenciei, passando a ser a narrativa de uma superação, podendo até vir a ser lida como a alegoria do dom consolador da arte. Mas, insisto  eu: se não se reconhece como consciente nenhuma outra forma de pensar que não a de Justine e, se essa forma de pensar é a expressão da mais funda tristeza (mal sublimada em coragem), não continuamos atracados no mesmo pessimismo? Penso inclusive que é nessa abordagem que o pessimismo melhor sobressai, pois é nela que o ‘eu’ da personagem se mostra consumadamente só e eclipsado entre sofrimento e planeta azul.

(Atenção: tenho consciência do caráter anti-estético destas minhas especulações. Pareço estar tratando o filme com a mão pesada de quem quer extirpá-lo – câncer – de um organismo. Seja lá como for, agradeço ao diretor por ter me instigado a organizar uma cruzada em favor da expulsão dos niilistas da cidade santa do meu imaginário).

Enfim, farei um esforço e seguirei na leitura do filme como odisséia psicológica, que julgo tanto mais forçada quanto mais exige que suponhamos que, num filme que mostra o fim do mundo, não interessa o mundo, mas apenas uma personagem.

Bem… Se a relação entre ‘eu’ e ‘outro’ está reduzida aos aspectos psicológicos, não faz mais sentido pensar que as palavras sombrias que saem da boca de Justine têm algum valor ontológico. Mas, mesmo apelando para o cômodo expediente de recortar numa obra apenas o que o espírito de nossa época pode entender dela, mesmo chutando pra escanteio a dimensão religiosa do filme, resta ainda assim a Justine juiz e a Justine artífice.

O que vemos é que a personagem, que em tese já estaria encarando com desapego a morte iminente, não se furtou a ajuizar sobre a desimportância do homem. Justamente nesse momento, suas palavras sobre o (não) sentido da vida ganharam implicações emocionais, ressumando amargura e escárnio contra a irmã e o mundo que esta representa, o que nos leva a duvidar de sua vitória sobre a depressão. Quem tripudia sobre a fraqueza alheia parece querer descarregar um coração ainda pesado, não é? Dentre os fatores que contribuem em muito para que eu não consiga ver essa obra como transfiguradora, este detalhe é o principal. No momento em que Justine diz que sabe “que estamos sós, que a Terra vai acabar, que não há vida além, que não se perde grande coisa”, encontro, antes de tudo, ódio aos valores sociais, projeção deles sobre a estrutura do real e conclusão de que ‘o mundo é mau’. Talvez não seja impróprio dizer, ainda segundo Nietzsche, que o niilismo de Justine é “passivo” – pois ela deseja a morte – e “incompleto” – pois ela ainda julga o mundo. (Aliás, se ao longo do texto tenho usado uma acepção vagamente pop da palavra niilismo é justamente porque há algo de revolta adolescente nessa cena que me faz suspeitar que, por sob o talento para emular um certo pathos wagneriano, Lars Von Trier pode ser um artista vagamente pop).

Em contraste com esses amuos, Justine logo depois agiu para dar ao sobrinho uma morte sem sofrimento. Enquanto artífice, Justine seria a fabricante de mitos, o demiurgo, o artista trágico, o homem forte. Já seu sobrinho seria o puro sonhador, o inocente apolíneo entregue ao fluxo de sua própria doce ilusão.

Esse aspecto da personagem (Justine artífice) ilumina o filme. Mas o clarão não dura muito. Se percebermos que o que se mostra ali é que a arte não passa de uma proteção pateticamente vazada como aquela “cabana mágica”, enquanto o mundo não passa de um processo incognoscível, irracional e terrível, então talvez tenhamos chegado ao cerne da questão: Lars von Trier realmente desconhece outro sentimento de mundo que não o pessimismo, e pôs em fotograma a forma mais poderosamente bela do suicídio artístico. Ele quer que nossos olhos vejam muito bem que a morte tem a última palavra sobre tudo, inclusive sobre a arte.

O Belo – O Bom = O Terrível.

(Sugiro, como antídoto, Oito e Meio de Fellini, com sua imensa ciranda final, em que a aceitação da realidade do outro vira uma nova cosmogonia. O mundo se fará de novo, está transfigurado, alguém disse a palavra sim através da arte, mas da arte como rito de reintegração na vida e não como abdicação do mundo).

Penso que Nietzsche seria realmente a resposta mais saudável ao estado de desânimo gerado por esse filme, não fosse a possibilidade de o filósofo ter apenas aprofundado o niilismo que tentou superar, deixando o flanco de todos os que não se consumaram ‘super-homens’ desguarnecido para as investidas da melancolia.

Tendo a concordar com o que escreveu o poeta Murilo Mendes: “os caminhos de Nietzsche visam à Grécia, mas, é pena, passam pela espada não-alada, pela rua da inestrela que não dança.”

Resta saber – e isso por enquanto está fora de meu alcance – se seu diagnóstico sobre o dualismo socrático-platônico ter sido o germe de uma depreciação do impulso de vida (com toda a crítica à moral, aos valores, à finalidade, à metafísica que veio a reboque desse diagnóstico) foi um grito de alforria, uma confissão de derrota ou um riso de carrasco.

Mas a questão que realmente cabe ser levantada aqui é outra: será que um pacto improvável entre artista (o tipo nietzscheano) e filósofo (o tipo socrático) não se faz urgente, sobretudo em tempos melancólicos como este? Para que não pareça uma conclamação humanitária, vou trocar em miúdos: não está na hora de os mitos da incognoscibilidade do real, da solidão irremissível e da vontade de potência como núcleo do devir começarem a ceder vez à intuição da unidade entre ‘eu’ e ‘outro’?

Silencio aqui a dimensão em que intuo poeta e filósofo irmanados, porque estou aprendendo a escrever coisas mais convenientes para o ‘espírito do nosso tempo’ – tempo, aliás, nem trágico, nem socrático, mas apenas descolado.

Mas não silencio as perguntas que me ocorrem quando vejo Justine, Claire e o menino dentro da “cabana mágica”: o que fazer quando se tem alguma notícia de um traço amoroso unindo almas individuais, cosmos e supra-cosmos? Morrer estóico que nem Justine, a clarividente vitoriosa? Morrer histérico que nem Claire, a burguesa que o artista-tipo-nietzscheano adora imolar no altar de sua “autenticidade”? Morrer iludido que nem o menino, metáfora do homem libertado pela entrega à arte? Ou de algum outro jeito, que nunca ocorreria a Lars von Trier, porque sua inteligência talvez seja incapaz de supor que exista algo além desses três estados psicológicos?

O único traço “amoroso” entre terra e céu que o diretor parece conhecer é aquele balãozinho ridiculamente convencional que os homens lançavam depois da festa do casamento, sem saber que a indiferença cósmica devolveria apenas colisão e morte.

Pra mim é pouco.