Thiago Amud

Aforismos da madrugada

Para Thiago Thiago de Melo e André Félix

 

Tudo que não cabe no jornal interessa.

 

Meus parceiros e eu somos o lado B do disco, aquele que pode ser ouvido como a continuação natural ou como a negação do lado A. Depende de como o ouvinte ouviu o lado A.
Mas para ouvir o lado B, há que virar o disco.
Na era pós-CD mais ninguém vira discos, é claro. Ainda assim, e aliás, por causa disso mesmo, o que somos é o lado B.

 

A entrega ao fluxo do presente não é um fator determinante da arte, pode ser ou pode não ser. Há arte nascida da afirmação vigorosa do presente, mas há também arte nascida da polêmica deliberada contra o presente.
E há uma arte situada na própria tensão entre ontem e hoje. Pensamos que essa é a que descortina o amanhã possível. É aí que a gente se situa. Estamos num tempo de terceiras vias? Então somos a terceira via. Ou, se já houver três vias, a quarta. Mas sempre a outra.

 

Tudo o que é relevante em matéria de arte nasce sem código. Isso não é acidental, mas sim essencial à questão da arte. Aliás, permanece sem código pra sempre, por mais que vire canônico. O cânone nada mais é que é a inclassificabilidade disfarçada. É um modo que a cultura tem pra se proteger do inaudito.
Por isso, o jovem compositor tem mais é que buscar estudar e entender o cânone, porque ali é que está o perigo. Nenhuma rebeldia, nenhuma desconstrução, nenhuma atitude tem mais poder fundador do que a dos que hoje parecem velhinhos num museu. O lance é saber ouvir a perene modernidade em Noel Rosa e Dorival Caymmi e aprender o que tem de perene na modernidade. Não para fazer igual, nem sequer parecido. Ao contrário, para ter finalmente o direito de fazer o diferente.

 

Na verdade, somos muito velhos, de uma velhice assombrosa, porque os maiores jovens do Brasil têm hoje 65 anos.

 

Não ter mais que lidar com o policiamento contra o rock’n roll é um avanço.
Não ter mais que lidar com a crítica ao rock’n roll é um retrocesso.

 

A negociação entre música e juventude dá sinais de não estar conseguindo mais sair do campo dos negócios para o campo das artes.

 

Apresentar o vigor da banalidade contra os projetos totalizantes do intelecto teve uma função verdadeiramente catártica para a dinâmica da nossa música. Quando essa ação era empreendida por uma composição intelectuais/ majors, ela ganhou o nome de Tropicália.
Hoje que ela saiu das mãos dos intelectuais graças ao advento da Internet, e ganhou a praça através da ação do próprio “homem da periferia”, ficou claro que os intelectuais têm que encontrar alguma outra ocupação ao invés de permanecerem sendo esse misto de mestres de cerimônias e professores de antropologia.
Essa outra ocupação talvez fosse aprender a pensar a diferença entre a cultura e a arte.

 

No Brasil uma das armas mais letais que a cultura já brandiu contra a arte chama-se música.
Mas Clementina, Cartola, Nelson Cavaquinho, Aracy de Almeida são a própria arte brasileira.

 

Pensar que o campo da música popular pode ser um campo artístico não é um problema para a direita, mas é uma questão para a esquerda.
Não é problema para a direita porque ela nega de antemão essa possibilidade, colocando-a fora da discussão como uma perversão populista do fenômeno artístico.
É uma questão para a esquerda porque ela quer tirar partido dessa possibilidade, apresentando como fenômeno cultural o que, como arte, é irredutível.
Posto assim, parece que o caminho esquerdista é o mais tolerante.
Resta saber o que é mais letal para a arte: o exílio ou a lobotomia.

 

Superar esquerda e direita é o grande desafio da vida do esquerdista Caetano Veloso.

 

A discussão sobre letra e poesia é toda equivocada. A letra de música não passa de letra de música e a poesia não passa de… letra de música.
Numa letra de música a poesia dança. Num poema a poesia dança, senão não é poesia.
É uma discussão infrutífera porque não procura pensar no que é a música.

 

Por mais que criemos e nos esforcemos e sejamos bem sucedidos, nossa geração estará na sombra de gigantes. O que fazer com os gigantes, se não se é o rei Davi? Ora, acomodarmo-nos em seus ombros!

 

Hoje em dia todo mundo se acha no direito de perguntar a você (só porque você é compositor) se está ganhando dinheiro, se está fazendo sucesso, se está vendendo.
Ora, ninguém pergunta pro médico se ele está clinicando o suficiente para pagar as contas!
Que falta de educação!

 

Santo Elomar da Carantonha é um tapa na fuça do projeto moderno.

 

Vivenciar a modernidade como uma doença é fundamental antes de aceitar a modernidade. Quem aceita incondicionalmente a modernidade vira ou genocida ou telletubie.

 

A crítica implacável à modernidade também pode não passar de um modo de suicídio.

 

A cultura tem muito poder quando sabe usar a dança contra as pretensões de totalização da razão.
O transe, o êxtase, o passo sincopado – tudo isso é o saber do corpo, contra ele não tem nada que possa.
Mas chega um momento em que essa ação da cultura se flagra como puro narcisismo intelectual e percebe-se que desse modo a dança virou mera arma contra heranças consideradas “metafísicas” advindas de uma cultura eurocêntrica.
Nessa hora, a razão tem que escolher entre deixar a dança dançar ou seguir colada à dança como o sucedâneo de seu substrato mais profundo – coisa que ela não é.
Se forem capazes de viver esse escândalo, os amantes de “cultura popular” da Zona Sul do Rio de Janeiro aprenderão o quanto a vida é brincante.

 

Uma das marcas que caracterizam um pedante é sua aplicação do termo “muita informação” a um determinado tipo de música.
Clichê até não mais poder, esse termo revela imediatamente o contato superficial e mal digerido de umas quantas noções de teoria da informação adquiridas no primeiro semestre da faculdade de música, de letras ou de jornalismo.
O leigo muitas vezes se aproxima de uma música dessas com mais pureza e absorve mais e melhor essas “informações”, simplesmente porque pra ele não são “informações”, mas a própria música fluindo.

 

Numa faculdade de música se aprende técnica e a arte do convívio com seus colegas. Nunca se fala de arte.

 

O especialismo faz a gente acreditar que o letrista não pode escrever arranjos, que o pianista não pode dançar, que o iluminador não pode cantar. Se você faz muitas coisas bem, deve ser porque você é arrogante.

 

O maior xingamento para um compositor é dizer que ele é bom letrista. Ele se sente como uma namorada na flor da idade quando escuta do namorado: “Quero casar com você porque você tem bom caráter”.

 

Quando Cazuza disse que “precisa de uma ideologia pra viver”, ele ajudou a arrancar dos brasileiros a intuição a respeito da dimensão não-política da vida. Acontece que é só dessa que nasce a arte.

 

No Brasil, pensa-se que não se faz boa arte porque não se tem boa causa.
E se for porque todas as causas são boas demais?

 

O lirismo velho se renova investindo numa certa violência. Desse transe pode nascer a vontade de parar de vez. Mas se a atravessamos, aí somos dignos da alma dos violinos.

 

Parece que boa parte da sobrevivência do mito da MPB é devida à exploração midiática da aura do dependente químico: Maysa, Tim Maia, Elis Regina, Cazuza, Renato Russo, Cássia Eller.
Vide aquele programa da TV Globo chamado “Por toda minha vida”.

 

A TV Globo é a dona dos arquivos. É inútil lutar contra seu caráter tentacular.
Há que falar outra língua.

 

Desaprender a língua da mídia é a única coisa recomendável a quem queira renovar alguma coisa em matéria de arte.

 

Enquanto a frase de Schoenberg “Se é arte não é popular, se é popular não é arte” só puder ser entendida como manifestação de preconceito, não se avança na discussão do que é arte e do que é popular.

 

O relativista cultural quer engatinhar já podendo andar.
O fundamentalista cultural quer marchar sem ter nem engatinhado.

 

No Feicibuqui se aprende a emular presença de espírito.
A música que se cultiva na era do Fecibuqui é a música que aprende a emular presença de espírito.
O Espírito, que sopra onde quer, pode soprar aí também.

 

Uma das coisas mais constrangedoras para o intelectuário da esquerda CPC da UNE devia ser a sincera fé cristã de Nelson Cavaquinho.

 

Um dos sinais da ausência do ‘novo’ em algum trabalho dito ‘novo’ é o modo elogioso como alguns medalhões se referem a ele.

 

A superficialidade pode realmente gerar melhor arte do que a profundidade. Isso é que é de ma-tar!


Ninguém faz o que quer da música. As ilusões de domínio do homem sobre os objetos caem todas por terra quando se chega diante da realidade da música.
Talvez ela seja mesmo a linguagem mais próxima da divina.

 

Sob a égide do niilismo a música talvez tenha mesmo que ser a “canção expandida” tal como foi exaltada por Wisnik. Isso pode ter uma espécie de inevitabilidade como a da curvatura do arco do destino ocidental.
Quem quer sorver até a última gota o veneno do Nada do nosso tempo tem que aprender a passar a tarde estourando plástico bolha.
Quem matou Deus e viveu essa morte como um destino histórico inexorável chegaria aí, no plástico bolha. Era inevitável.

 

Estamos no tempo do plástico bolha.
Karina Buhr teve uma iluminação.
Eu sou um herege.

  

Minas Gerais quando quer manda na beleza da música do Brasil. Quando não quer, faz miçangas e vende na estrada.

 

Reconhece-se um tradicionalista da MPB pelo uso desesperado que ele faz dos juízos de valor e pelo seu sentimento de impotência diante das trans-valorações que absolutamente não entende.

 

Uma guitarra elétrica ainda pode fazer barulho?

 

Alguém escutou um silêncio por aí?

 

Quando Chico Buarque fala do fim da canção, quase tudo o que se gera é desejo de reação ou de adesão. Em ambos os casos, quem fala mais alto é o jornalista.

 

No mais, quando Chico Buarque especula sobre o fim da canção, talvez isso a liberte de seu fardo histórico. Talvez agora sim a canção se assuma como o que sempre foi: linguagem da alma.

 

Segundo uma leitura linearista, a canção acaba dando vez ao rap e à canção expandida.
Segundo uma leitura espiralada, a canção acaba para se permitir entrar no campo do poema sinfônico, do cinema de arte, da investigação filosófica.

 

Decretar que um determinado discurso é inacessível para o povo sempre foi tarefa para um tipo de elitista cultural.

 

Resta saber se aquele que decreta que a música de fulano é incompreensível para as massas seria capaz de compreendê-la em seu coração.

 

Trabalhar com ficções: como se a música não fosse uma ação do ser inteiro, mas sim do profissional de música; como se a crítica de música não fosse uma ação do ser inteiro, mas do profissional de crítica.
Depois desse arranjo cômodo, passar a raciocinar assim.
Pronto: temos uma geração. A isto chama-se uma geração.

 

Nos anos 60 a geração fincou pé nas ciências sociais. Do CPC da UNE ao tropicalismo, tudo noticia um ideal de síntese sócio-cultural, fomentado em debates a respeito do que é povo, cultura nacional, influência estrangeira, transformação comportamental, revolução, etc.
Hoje a geração fincou pé no jornalismo e na publicidade. O que se busca é eficácia comunicativa, poder de persuasão, adesão à linguagem do grupo, aparência de confiabilidade, ostentação de tolerância com a diferença.
Tomados em si mesmos, nenhum dos dois paradigmas garante boa arte. O que a garante é o conhecimento de algo incomunicável, e não obstante, o poder de comunicá-lo.
Nada mais.

 

A maledicência tem sido a especialidade do cancionista contemporâneo.

 

O músico sai do Brasil e volta despejando muxoxos sutis e aparentemente despretensiosos sobre muitos dos fatores que o formaram.

 

O erro técnico quando é pensado estrategicamente paralisa o ouvinte.
O erro técnico quando é adotado depois de descartadas todas as outras opções move o mundo.

 

Poucas vezes quando se fala de problemas técnicos não se está querendo falar de estética.

 

Quando precisarem de ódio, que a música dê o amor.
Quando precisarem de amor, que a música dê o amor vestido de ódio.

 

Ficar inacessível é, para uma geração respeitável, o modo mais elegante de estar morta.

 

Dias de hoje:
há quem pense que pode administrar a carreira para depois enxertar o fator poético em seu discurso.
Na próxima geração, este tende a ser considerado o grande poeta da geração precedente.

 

Tanto o milionário quanto o intelectual esquerdista (que muitas vezes são a mesma pessoa) ostentará preocupação com o povo quando se descobrir incapaz de entender uma determinada música.

 

Quando se fala do artista, recorrer a categorias como egoísmo, pretensão, falta de humildade, é como recorrer às noções de agressividade e selvageria para censurar a sanha dos tigres.

 

Os únicos artistas realmente arrogantes são aqueles que, montados num mega-esquema midiático e ideológico, se tornaram os porta-vozes do “homem-médio-gente-boa”.

 

Hoje ninguém vê o povo para poder querer falar pra ele com sua música. Vêem-se apenas números.

 

Apresentem-me uma estratégica eficaz de uso da máquina para bons fins artísticos.
Creio mais, isto sim, que alguma coisa boa possa ser gerada assumidamente dentro da máquina.

 

Se se pensasse mais na morte, far-se-iam melhores músicas.

 

Do polemismo nasceu a discórdia. Na crítica ao polemismo se espojará a estupidez.

 

Não aos purismos, não aos hibridismos.

 

Pode ser que a música sofra muito menos com o advento do funk do que com a recusa obstinada de lidar com ele.

 

Na música só amo um modo de lidar com a cultura: guardando-a em meu desconhecimento.
Não é desprezo, não é recusa, não é nojo: é a sagrada inocência.
Não peço outra coisa das Musas.

 

Lendo jornais, aprende-se a pensar que a eternidade é um discurso opressor oposto à saúde da efemeridade.
As coisas perdem realidade, horizontalizam-se.

 

O artista estratégico tem uma vantagem sobre o artista ingênuo: pensa-o como um signo entre outros.
Mas o artista ingênuo é quem inventa chãos.

 

O artista ingênuo não compreende o artista estratégico nos termos deste. As Musas o resguardam dessa queda.

 

O artista ingênuo, não sabendo bem o que pensar do artista estratégico, parece, aos olhos deste, um não-pensante.
Mas quando o artista estratégico percebe que ainda há visgos de céu na obra do artista ingênuo, quer se matar quando lhe sobra ainda caráter.
Quer colonizar o céu do ingênuo, quando perdeu toda a esperança.

 

‘A música não pertence ao artista ingênuo’, assim pensa o artista estratégico. ‘A música não pertence a ninguém, porque ela é uma construção. Portanto, posso simular com minha música que vejo as portas do Céu.’
‘A música não me pertence’, assim pensa o artista ingênuo. ‘Não sou digno das portas do Céu, mas vou cantar para ver se elas se abrem.’

 

Sei de compositores que resolveram com estrutura o que lhes faltava em inspiração. Pareciam algozes.
Sei de outros que aniquilaram a inspiração de tanto desprezarem a estrutura. Pareciam flagelados.
Finalmente sei dos que resolveram a questão sem sequer deixar suas marcas no caminho. Eram anjos.

 

A grandeza de Mozart estava no fato de que, identificando-se com a gravidade de Tamino, nunca desprezou as tolices de Papageno.