Thiago Amud

A MPB ENTRE A ARTE E O TRONO DO MERCADO (Tárik de Souza, REVISTA CULT, 15 de outubro de 2010)

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“A MPB entre a arte e o trono do mercado

Com a erosão dos meios de difusão, compositores e intérpretes viram seu palco de atuação e propagação diminuído

Publicado em 15 de outubro de 2010

Tárik de Souza

Como o Brasil é muito extenso – fragmentado por regionalismos e absurdas discrepâncias de renda, escolarização e capacidade de geração e apreensão cultural –, não há como definir um rumo linear para a música popular. De forte apelo nacional, ela não possui uma voz única. Ao mesmo tempo, os cada vez mais abrangentes meios de comunicação também não a disseminam de forma democrática, com igualdade de oportunidades para os mais diversos gêneros sonoros que povoam nosso território. Tais limitações são regidas pela engrenagem financeira imediatista do mercado. Ou seja, é fácil encontrar música populista brasileira (geralmente classificada de brega) nos horários mais nobres dos meios de comunicação de massa, muitas vezes turbinada por uma divulgação artificial, financiada (o assim chamado “jabá”). E não a resultante da que deveria ser uma demanda popular de oferta ampla. É um circuito que se autoalimenta, já que ele condiciona o ouvido da maioria da população a um único tipo de música e abordagem.

Ainda que essa música possa vestir formatos como sertanejo, pagode romântico, forró pop ou axé music, muda-se a embalagem, mas o conteúdo vem recheado dos mesmos clichês poéticos de paixão exacerbada ou revanche amorosa, enquanto as linhas melódicas reprisam sequências surradas, incapazes de tirar a audiência da zona de conforto do já conhecido. “O povo sabe o que quer / mas o povo também quer o que não sabe”, já cantava com sagacidade o compositor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil, em “Rep”, faixa de seu disco O Sol de Oslo, de 1998.

Mas, dentro desse cenário viciado, há curiosas exceções, sob certos aspectos. Como o assumido “tecnobrega” paraense e suas variações, cujo lastro musical-poético não difere muito dos congêneres do mercado de massa, exceto pelo fato de ser um produto independente cedido à promoção pela divulgação pirata dos camelôs locais. Some-se a isso alta tecnologia, utilizada em iluminação, cenários, aparelhagem e efeitos sonoros. Da mesma forma, independentes (difundidos ou não por gravadoras) e virais, espalharam-se o rap, em geral de forte conteúdo contestatório, como o dos pioneiros Thaíde e DJ Hum, mais Racionais MC’s, Sabotage (que morreu assassinado), Mzuri Sana, O Rappa, Nega Gizza, Xis, MV Bill, Negra Li, e também uma perna associada ao samba, via Rappin’ Hood e Marcelo D2. E ainda o funk carioca, de alto apelo sexual, não raro pornográfico, junto aos “proibidões”, que exaltam os bandidos e a vida marginal. Inicialmente uma mera cópia dos batidões de baixo estertorado do estilo norte-americano miami bass, esse funk – dentro da espontânea antropofagia cultural brasuca – ganhou a adesão do tambor de candomblé, acelerou a batida e sofisticou-se na direção de um eletroclash nativo, com repercussões internacionais.

Após uma década de ouro – os anos 1980 –, quando implantou no país um modelo pós iê-iê-iê com tinturas punk e pop em variadas colorações (Blitz, Legião Urbana, Paralamas, Titãs, Kid Abelha, Engenheiros do Hawaii, Lobão, Lulu Santos, Marina Lima, Cazuza, Angela Ro Ro, Barão Vermelho, Ira!, RPM, Capital Inicial, Camisa de Vênus), o BRock, que conseguiu exportar até heavy metal via os mineiros do Sepultura, diminuiu sua influência e poder. Passou por uma geração que incorporou elementos étnicos como os do “mangue bit” pernambucano, viveu a imolação da rascante antidiva Cássia Eller, a meteórica passagem da híbrida banda Los Hermanos, e desaguou em tribos pop de calibres variados. Dos tristonhos de rímel do emocore aos jeans de cores ácidas do happy rock. Num nicho à parte, bandas como a cearense Cidadão Instigado (do guitarrista Fernando Catatau, o mais influente da nova fornada), Móveis Coloniais de Acaju, de Brasília, e a mato-grossense Vanguart oferecem dissonâncias ao discurso dominante no setor.

Fora do mercado os gêneros mais tradicionais do país
Os gêneros mais tradicionais do país, como o samba, o choro, a música nordestina (hoje abrigada sob o rótulo totalizante de forró), a música caipira (não confundir com a genérica sertaneja) e, principalmente, a MPB, foram desalojados da corrente principal do mercado. As mudanças sociológicas introduzidas no campo pelo agronegócio, seus utilitários de cabine dupla e rodeios luxuosos – que fez brotar até uma corrente de chamados “sertanejos universitários” – pareceram condenar os caipiras que ainda utilizam a ancestral viola, com afinações de nomes pitorescos como “cebolão”, “rio acima” e “rio abaixo”, à total obsolescência. Mas, a despeito de ter seu espaço reduzido a heroicos programas de TV, como os de Inezita Barroso e Rolando Boldrin, entre poucos outros, a caipirada, que revelou, a partir dos 1970, de Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho a Almir Sater, semeou ases da viola como Ivan Vilela, Roberto Corrêa e Paulo Freire. E um incontável número de seguidores, país adentro, do paradoxal virtuosismo caipira/erudito, do baiano Geraldo Ribeiro ao mineiro Renato Andrade – este, uma espécie de João Gilberto da viola, pelo mistério de sua originalidade e seus “causos” míticos.

Após conseguir reinventar-se por meio do pagode de raiz em meados dos 1980 (com Zeca Pagodinho, Grupo Fundo de Quintal, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Jovelina Pérola Negra, Jorge Aragão), o samba voltou a brotar nas casas noturnas de classe média de uma Lapa renascida da decadência, no Centro do Rio. Um dos berços da urbanização do samba (ao lado do Estácio), a Lapa, que sucumbiu nos anos 1950 com a ascensão dos inferninhos de Copacabana e ganhou impulso com neossambistas como Teresa Cristina e o Grupo Semente, Rodrigo Maranhão, Roberta Sá, Moyseis Marques, também abrigou pelotões renovados (ou revalorizados) de chorões.

Mas, apesar do aparecimento de notáveis jovens virtuosos como o violonista gaúcho Yamandu Costa e o bandolinista brasiliense Hamilton de Holanda, esse gênero (a que eles não limitam seus repertórios) enquadra-se no segmento da música instrumental, que teve seus espaços progressivamente reduzidos, especialmente no Rio, onde foram desativadas várias casas noturnas dedicadas ao setor. Ainda que sucessivos revivals da cinquentenária bossa nova tenham chamado atenção para o estilo samba-jazz, é pequeno o número de grupos ou solistas novos que conseguem traçar uma carreira expressiva fora do acompanhamento de estrelas canoras. Mas mesmo estas e os novos compositores(as) e cantores(as) viram seu palco de atua-ção e propagação diminuído, com a progressiva erosão dos meios tradicionais de difusão de seu trabalho: a venda de CDs e, posteriormente, DVDs.

O afundamento da indústria do disco
O afundamento da indústria do disco, especialmente no caso brasileiro, era previsível. Depois de décadas em que as diferentes gravadoras (na grande maioria, multinacionais) faziam suas apostas artísticas, como manda a prudência do mercado financeiro, em ases de curto, médio e longo prazo, essa estratégia foi drasticamente modificada, a partir dos anos 1990. O foco único passou a concentrar-se nos chamados produtos descartáveis, de fôlego curto, vendas altas e imediatas. A chamada MPB, cuja linha evolutiva após a era de ouro tinha tomado rumos cada vez mais inovadores após a bossa nova (era dos festivais, tropicalismo, clube da esquina, neonordestinos, vanguarda paulista), foi progressivamente alijada dos meios de difusão de massa, movidos, muitos deles, a jabá. Mesmo figurões coroados em décadas anteriores (Caetano Veloso, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Chico Buarque, Gal Costa, Jorge Ben Jor, Maria Bethânia, Djavan) passaram a viver mais de shows do que de discos. E muitos saíram das majors para selos independentes, uma tendência iniciada ainda nos anos 1970, com o pianista e compositor Antonio Adolfo e seu Feito em Casa (vendido de mão em mão) e a explosiva estreia do grupo vocal Boca Livre, que vendeu 100 mil cópias, em 1979, e atestou ser possível triunfar fora das regras tradicionais do mercadão.

E os artistas de gerações seguintes, como o pernambucano Lenine, o paraibano Chico César, o maranhense Zeca Baleiro, o carioca Paulinho Moska, a fluminense Zélia Duncan – mesmo seguindo o caminho inverso da ala rock, ou seja, misturando a MPB com pop –, fizeram longos trajetos até estabelecer-se. Algumas cantoras/autoras chegaram mais rápido ao topo, como Marisa Monte (impulsionada pelo mix dos Tribalistas, com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown), Adriana Calcanhotto (reinventando-se no heterônimo infantil Partimpim), Vanessa da Matta (propulsionada inicialmente por Maria Bethânia) e Ana Carolina (versátil até na associação com o camaleônico Seu Jorge). Mas o mercado estreitou-se à tradição (re)elaborada de criadores como Guinga, Sérgio Santos, Celso Viáfora, Mônica Salmaso, Chico Pinheiro, André Mehmari, Chico Saraiva. O que não impediu o aparecimento de uma nova fornada de ambiciosos criadores desapegados da política de resultados do mercado, como Armando Lobo, Thiago Amud, Mauro Aguiar, Edu Kneip. E de programadores/produtores/intérpretes que mudaram as regras do jogo privilegiando timbres e texturas (sucedendo o anterior binômio melodia/harmonia), como Lucas Santtana, Berna Ceppas, Kassin, Domenico, Moreno Veloso. E grupos/aparelhagem como Instituto (SP) e Digital Dubs (RJ). A internet projetou o folk da precoce Mallu Magalhães, que se encaminha para a MPB. E o aparecimento de muitos novos criadores simultâneos numa São Paulo cada vez mais efervescente culturalmente, embora não configure um movimento estético, denota inescapável vitalidade criadora. Alguns exemplos: Rômulo Fróes (e seu núcleo ligado às artes plásticas, com Nuno Ramos e Clima), Céu, Mariana Aydar, Karina Buhr, Luísa Maita, Rodrigo Campos, Tulipa Ruiz, Guizado, Marcelo Jeneci, Lulina, Thiago Pethit, Tiê.

Para onde apontam essas novas tendências? Que fôlego ainda terão os culturalistas em meio a uma corrente principal de difusão de massa que privilegia os reality shows, as novelas e sua rasa casta de celebridades? A internet, suas redes sociais e o Twitter, se possibilitam ao artista um acesso direto ao fã, também podem fazer nascer uma arte domesticada, regida pela necessidade de cortejar um nicho de mercado remanescente, pós-implosão das cadeias de lojas e a própria indústria de discos. Num momento de transição (da era industrial para a avassaladora era tecnológica) podem ocorrer curiosos paradoxos. Como a volta do vinil, em contraposição ao linchamento do CD, posterior e mais prático, ainda que com uma perda técnica, que não se compara com a que é submetida a leva de consumidores de músicas congeladas em iPods e MP3. A pulverização da arte on-line – que pune os produtores de conteúdo com a gratuidade e remunera regiamente os inventores de software e mecanismos de busca – pode resultar em novos formatos artísticos. Ou na multiplicação dos guetos, alijados pela massificação descaracterizadora. O “tempo rei”, a que também se referia em outra canção Gilberto Gil, virou tempo real. E ai de quem não for para o trono.

DEPOIMENTOS
“A produção contemporânea é muito heterogênea e diversa. Temos nomes como Yamandu Costa e Hamilton de Holanda, inigualáveis e inovadores na música instrumental; Lula Queiroga, poeta criativo e cronista do nosso tempo, na música pop; o maestro Roberto Minczuk, que está revitalizando a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) e trazendo um novo público para a música erudita. Precisamos de investimento na formação de uma plateia que pense música de uma maneira mais abrangente e crítica e que tenha mais elementos para poder escolher o melhor, dentro de seu gosto e estilo.”
Roberta Sá, cantora

“Os meios de produção ficaram mais baratos do que jamais foram. Há dez anos, a hora do estúdio era muito mais alta e você não conseguia a qualidade que temos hoje. Havia uma diferença enorme entre o estúdio caseiro e o profissional, mas, com a evolução digital, num laptop é possível fazer música. Isso definitivamente viabilizou que vários artistas tivessem o direito de existir. Existe a possibilidade de você publicar sua obra na internet, o que não dava para fazer há 15 anos. Precisava de uma gravadora grande, mas hoje tem a facilidade de sites, redes sociais etc. Inclusive dá para vender, além de produzir, publicar e promover seu trabalho. Claro que novos cenários trazem novas dificuldades e desafios, porém é inegavelmente mais barato. Acho que hoje é tudo mais democrático. Os talentos de hoje não têm a mesma dificuldade que os antigos, que ficavam na mão de umas cinco gravadoras com lançamentos limitados no ano. Principalmente no Brasil, que é um país que gosta de música e isso tem um efeito de difusão. É uma grande conquista.”
João Marcello Bôscoli, diretor-presidente da Trama Entretenimento”